Limites


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A vida é composta por muitas coisas. Há que se reservar para cada uma delas tempo e/ou espaço certo, pois exceder em uma significa suprimir outra. É uma questão de limites. Grande parte dos nossos problemas decorre da dificuldade de delimitar nossas ações, nossas preocupações. Exageros em umas, faltas em outras geram desequilíbrio, seja na órbita individual, seja na social. O limite da autoridade está na lei; ultrapassada esta, vem o abuso. O ganho determina o limite dos gastos; do contrário vem o desajuste financeiro. A necessidade de lazer delimita o trabalho, e vice-versa. Há sabedoria em respeitar os limites que a natureza impõe. Quando se tem sono deve-se dormir. Quem toma estimulantes para agüentar mais tempo acordado está subvertendo leis naturais que regem o funcionamento do organismo. Mais cedo ou mais tarde surgem as conseqüências. Os “rebites” que motoristas de caminhão tomam podem até tirar-lhes o sono, mas lhes tiram também a saúde. No livro I de “Os Ensaios”, ao defender a moderação, Montaigne escreveu: “Pode-se tanto amar demais a virtude como se comportar com excesso em uma ação justa. A esse ponto de vista se ajusta a voz divina: ‘Não sejais mais sábios do que é preciso, mas sede sobriamente sábios. (...) Aprecio as naturezas equilibradas e moderadas. A falta de moderação, mesmo para com o bem, se não me choca, espanta-me e causa-me dificuldade de batizá-la”. No campo do saber, há que se distribuir o aprendizado, de forma a que os conhecimentos sejam realmente úteis nas várias situações do dia-a-dia e sirvam para tornar melhor o convívio, ao invés de colocar barreiras à coexistência. Ser uma sumidade em alguma área do conhecimento é bom, mas não pode levar ao isolamento. Não adianta ser gênio e não saber prosear, falar de trivialidades, lançar um gracejo, compartilhar amenidades, não conseguir fazer uma amabilidade, ter dificuldade de se aproximar do sexo oposto, enfim, parecer um alienígena. Um saber não pode anular outros saberes. Um jovem me perguntou se eu achava que ele devia pegar firme no estudo ou aproveitar a juventude. Eu lhe disse que não conheço ninguém que perdeu as boas coisas da juventude porque se empenhou nos estudos. Estudar e aproveitar a vida não são coisas que se anulam. Engana-se quem pensa que fazer coisas necessárias e úteis é perder tempo. Com método pode-se arranjar tempo para tudo. Mas é preciso cuidado para não se deter perante falsos limites, não os confundir com obstáculos. O que às vezes parece o limite nada mais é do que uma barreira que se deve transpor para seguir adiante. A dificuldade de aprender não pode ser motivo para permanecer na ignorância. Em muitos casos, o limite real está muito além do que se imagina, e então é necessário romper os limites imaginários. Outras vezes o limite está bem aquém. O senhor Renan Calheiros e seus aliados já deixaram para trás a fronteira da ética e da decência. O presidente Lula poderia entrar para a história como o que acabou com a famigerada CPMF. Em vez disso, indiferente às dificuldades enfrentadas pelo contribuinte com a já extorsiva carga tributária, buscou a qualquer custo aprovar a prorrogação do ‘imposto do cheque’. O Brasil precisa de homens públicos que reconheçam e respeitem limites. Pensei que lançar um livro com meus textos fosse o limite. Não é. Com o lançamento, fui alçado a promotor de vendas, pois a obra não é daquelas que se vende sozinha. Se não busco meios alternativos, não vendo. Sempre fui um tanto quanto fechado e estou tentando vencer as próprias limitações. Já estou passando o limite do espaço. Até a próxima. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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