Superbase ‘custa’ 65 caminhões de terra por mês


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Luiz Carlos Fernandes (PSDB): vereador revelou cota de caminhões de terra para aliados do prefeito Sidnei Rocha (PSDB) na Câmara
Luiz Carlos Fernandes (PSDB): vereador revelou cota de caminhões de terra para aliados do prefeito Sidnei Rocha (PSDB) na Câmara
A julgar pelas declarações do vereador Luiz Carlos Fernandes (PSDB), o apoio da base governista ao prefeito Sidnei Rocha (PSDB) na Câmara tem um preço módico: 65 caminhões de terra por mês, ou cinco para cada vereador distribuir à população. A revelação foi feita ontem durante a gravação de um especial de fim de ano da rádio Difusora. “Sabe qual a cota para cada vereador? São cinco caminhões de terra por mês”, afirmou, com naturalidade.O prefeito nega. Em lojas de material de construção, um caminhão com 6 metros cúbicos de terra custa, com a entrega, R$ 40. Assim, para “amansar” os vereadores e manter um bom relacionamento com a base (ou seja, aprovar todos os projetos que quiser), o prefeito “gasta” R$ 200 por vereador, ou uma bagatela, se for considerada a base de 13 parlamentares, de R$ 2,6 mil mensais. Se especialistas consultados consideraram a medida irregular (leia ao lado), a reação de Gilson Pelizaro (PT), que também participava da gravação, foi imediata. Demonstrando espanto, chegou a cortar a fala de Fernandes para protestar. “Eu não sei de nada disso não. Não tenho cota nenhuma. Se existe a cota, alguém está usando a minha. A oposição não recebe”, disse o petista, que criticou a suposta moeda de troca. “É o fisiologismo descarado. É um toma-lá-dá-cá oficial lamentável. Queremos explicações”, afirmou. Silas Cuba (PT) e Graciela Ambrósio (PP), que também participaram do gravação, estranharam a informação. “Não sei e não recebo cota”, disse Graciela. Já Silas foi mais incisivo. “É um crime que precisa ser investigado. Não hesitaremos em procurar a Justiça”, disse. Ao perceber que tinha cometido uma gafe, tornando público um acordo fechado nos bastidores da administração municipal, Fernandes ficou preocupado - chegou a colocar as mãos na cabeça - e tentou se corrigir. “A maioria dos pedidos são para a periferia, para pessoas carentes (...) Isso é feito por indicações dos vereadores”. Quanto ao limite de caminhões, Fernandes disse que foi estipulado pelo prefeito para evitar “abusos” na distribuição da terra. “Se cada um dos 15 entregar dez caminhões, daria 150 caminhões por mês. Então, o prefeito estabelece que cada um, através de avaliação da assistência social, (possa distribuir) cinco caminhões”. CONFIRMADO Marcelo Mambrini (PMN), que na maioria das vezes também vota com o prefeito e chegou a denunciar o “Mensalinho da terra” no fim de 2006, confirmou a existência e explicitou um agravante. Foi criado um sistema para que a terra possa ser distribuída “na surdina”.“As indicações têm de ser lidas no Plenário. Aí, passou a ser feito por ofícios diretos para o gabinete”, disse. Já Marcelo Valim (PSDB) tentou atenuar as declarações de seu colega dizendo que não existe limite de caminhões de terra e que o prefeito atende às solicitações conforme é possível. “Eu nunca tive cota, até porque tenho trânsito aberto. Nunca ouvi falar disso”. O Ministério Público foi procurado para analisar a situação, mas o promotor responsável pela Cidadania, Paulo Borges, está viajando em férias e só retorna na quarta-feira que vem. Especialistas Dois especialistas e um ex-vereador ouvidos pelo Comércio concordam: a prática de pedir votos em troca de caminhões de terra e pequenos benefícios, embora comum, é totalmente irregular. Para Roberto Romano, cientista político da Unicamp, a prática traduz o espírito brasileiro de fazer política. “É inaceitável, é uma espécie de compra de voto camuflada. Era o morador, que pede de forma errada e à pessoa errada, e o parlamentar, que se sujeita a isso. O papel do vereador devia ser legislar, não conseguir pequenos benefícios individuais”, diz. Já o ex-vereador Everton Lima acredita que Luiz Carlos Fernandes foi infeliz na declaração. “Infelizmente, é uma coisa que acontece em todos os governos. O estranho é um vereador experiente, como o Luiz Carlos, revelar de forma tão natural”, afirma. Já o cientista político Maximiliano Martin Vicente, da Unesp de Bauru, acredita que a ação, se comprovada, pode render dor de cabeça ao prefeito e aos vereadores. “O princípio é o mesmo do mensalão, onde os parlamentares vendem o voto e o apoio por benefícios, sejam pessoais ou partidários. É uma prática errada”, diz Maximiliano.

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