Um monstro em Miguelópolis


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Balas, moedas, bonecas e toalhas esfarrapadas. Esse era o tipo de presente que o tenente aposentado da Polícia Militar paulista Darcy de Almeida Barreto, 70, usava para aliciar crianças com idades entre 7 e 10 anos para a prática de pedofilia em sua casa no Centro da cidade de Miguelópolis. Preso em flagrante anteontem à noite, com cinco meninas, era farto o material pornográfico encontrado pela polícia da cidade em sua residência. Após um início de tumulto, ele foi mantido na delegacia local e, na quinta-feira de manhã, seguiu para o presídio da PM em São Paulo, onde deverá ficar até julgamento. Os policiais militares da cidade, que tem menos de 20 mil habitantes, chegaram à casa de Barreto depois de denúncia feita ao Conselho Tutelar local. Às 18h45, MVS, 37, foi avisado por vizinhos do aposentado que sua filha de 8 anos estava dentro casa do policial. De imediato, ligou para a conselheira tutelar Carmen Lúcia Tosta, que, por sua vez, acionou policiais militares. No interior da casa, que estava com a porta principal aberta, Darcy Barreto foi encontrado com três crianças; as outras duas já haviam saído. Segundo a conselheira, as crianças brincavam em um quarto. Na sala, computador e televisão ligados exibiam cenas se sexo. Surpreso com a abordagem, ele não esboçou nenhuma reação. Perguntou apenas o que estava acontecendo. Como oficial da Polícia Militar, foi necessário que outro oficial viesse para prendê-lo, segundo normas do regulamento da corporação. Na casa, a quantidade de material encontrado chamou a atenção. Foram quase 300 CDs e DVDs apreendidos. Continham cenas aberrantes de sexo hetero e homossexual, sexo com animais e relações sexuais entre adultos e crianças e até de pai e filho, filmadas de forma amadora. “Coisa podre”, como resumiu o tenente Márcio Alves Cardoso, de Ituverava, responsável pela prisão. A coleção do acusado vai longe. Filmes pornográficos comerciais, baralho erótico, diversos preservativos, medicamento Levitra (semelhante ao Viagra, para problemas de ereção), câmera fotográfica, com fotos próprias acompanhado de crianças, com conotação sexual, sem contar as imagens arquivadas no computador do ex-policial, que passará por perícia no Instituto de Criminalística. [FOTO2] Como se não bastasse, ainda foram encontrados um revólver calibre 38, sem origem comprovada, uma carabina de pressão, uma pistola importada calibre 380, com dois carregadores cheios e munição diversa. AS VERSÕES Aos policiais e às conselheiras, Darcy Barreto disse que apenas ajudava as crianças, dando presentes a elas. Falando com as meninas, no entanto, as integrantes do conselho e os policiais militares que fizeram a prisão obtiveram relatos ricos em detalhes e praticamente iguais entre todas. Darcy Barreto abordava as crianças nas ruas próximas e, com a promessa dos tais presentes, conseguia a confiança das meninas atraindo-as para dentro de sua casa. Segundo elas, todas assistiram aos filmes e presenciaram o aposentado acariciar as pernas e a vagina de L, de 10 anos. As carícias prosseguiram em mais duas crianças. Também houve uma sessão de fotos. Após se aposentar da PM, em São Paulo, como sargento, obteve a promoção a tenente e foi morar em Miguelópolis. A casa, no Centro da cidade, é simples, mas confortável e equipada. Com salário aproximado de R$ 4 mil, viúvo, tem carro e moto na garagem. Na cidade, apenas alguns familiares não diretos. O meio-irmão, Augusto, 77, acompanhou o flagrante, conversou com Darcy, mas não esboçou nenhuma reação que não fosse de surpresa. “O que eu posso dizer ao senhor?”, perguntou à reportagem. A HISTÓRIA Pai de duas filhas, uma advogada em São Paulo, e outra, supostamente empresária, em Santos, não foi possível saber se tem netos. Essa é a única parte desconhecida de sua história. O resto é quase de domínio público. A preferência sexual do oficial não era surpresa para ninguém na cidade. Dos vizinhos ao Conselho Tutelar, passando pelas polícias Civil e Militar, todos sabiam que Barreto mantinha comportamento no mínimo suspeito, dado ao entra-e-sai de crianças em sua casa, onde morava há três anos. “Rapaz, o negócio desse homem é antigo; já tem muito tempo que isso acontece”, disse um sargento da PM. “A gente vê as coisas acontecendo e começa a desconfiar de algo errado”, revelou um vizinho. Segundo o delegado do município, Paulo de Castro Cervantes, a Polícia Civil chegou, em diferentes ocasiões, a fazer diligências na tentativa de flagrar Darcy Barreto. Nas maior parte das vezes, os policiais chegavam após as crianças terem deixado o imóvel. Apesar dos indícios, o tenente da PM, que chegou a ser praticamente expulso do bairro em que morava anteriormente e antes de se mudar para a atual residência, nunca foi investigado. Ao todo, Polícia Militar, Polícia Civil e Conselho Tutelar tiveram conhecimento de 15 denúncias contra o policial nos últimos anos. Por orientação de sua advogada, Fabiana Ferreira dos Santos, Darcy não concedeu entrevista ao Comércio no dia de sua prisão.

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