Juliana tem 39 anos. Há oito meses fez um transplante de rim no Hospital da Universidade Federal São Paulo. Seu pai foi o doador. O transplante foi um sucesso: livrou Juliana da hemodiálise (filtragem do sangue) e deu a oportunidade de uma vida normal, inclusive de continuar trabalhando como funcionária pública.
Porém, para que seu corpo e o novo órgão transplantado funcionem de maneira eficaz, ela não pode deixar de tomar os medicamentos imunossupressores (que controlam a rejeição), de alto custo e que estão em falta na rede pública de saúde.
José Maria Damasceno Júnior, marido de Juliana, é quem busca os remédios mensalmente na Farmácia de Alto Custo, localizada no bairro da Estação. Ontem, depois de esperar por quatro horas com a receita em mãos, foi informado de que o medicamento estava em falta. “Fiquei apavorado. O que não entendo é que na farmácia há uma agenda prevista para buscarmos o remédio e poderiam ter providenciado antes”, disse José Maria.
Os medicamentos que Juliana utiliza são dois e devem ser tomados todos os dias pelo resto da vida. Juntos, os imunossupressores (micofenolato de sódio 360 mg e tacrolimo 5 mg) custam mais de R$ 3,7 mil. Ela e o marido têm renda mensal bruta de R$ 4 mil e precisam do auxílio da rede pública. Juliana não é a única. Todos pacientes transplantados (coração, rim e fígado) que residem em Franca e nos 21 municípios da região são atendidos pela Farmácia de Alto Custo. “Ontem muita gente voltou para casa sem remédios. Não fui apenas eu. A atendente olhava as receitas e dizia: ‘Este não temos’”, disse José Maria.
A Diretoria Regional de Saúde (DIR Xlll), órgão ligado à Secretaria Estadual de Saúde, não informa, porém, quantos são os dependentes desse tipo de medicamento em Franca. Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde confirmou a falta e a considerou como “pontual”. Disse que a situação deve se normalizar entre sexta-feira e o início da próxima semana.
Segundo a assessoria, o micofenolato acabou na terça-feira e o tacrolimo um pouco antes. “Estamos remanejando medicamentos de farmácias de outras cidades para suprir essa falta pontual”, disse o assessor Arthur.
Enquanto o medicamento não chega, José Maria teme que a falta prejudique a saúde de sua mulher. “A gente pode esperar, o problema é que o órgão não espera. Se ela não tomar é perigoso contrair uma infecção ou até mesmo o próprio organismo eliminar esse rim”.
O médico Otto Cézar Barbosa, chefe da comissão de transplantes da Santa Casa, confirma que há a necessidade diária e contínua de os transplantados tomarem os remédios. “Eles têm melhorado o resultado do transplante. É essencial porque nunca vai haver uma pessoa que recebe um órgão e aceita como dela. O organismo tenta rejeitar”.
Ainda segundo Otto, não são todos os imunossupressores que têm alto custo, mas ele garante que grande parte das pessoas precisam dos mais caros. “A medida que a medicina vai evoluindo, vão surgindo novos remédios com menos efeitos colaterais e maior eficácia, e normalmente são muito caros”.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.