O prato-espetáculo político a ser servido aos brasileiros nos próximos dias é a badalada greve de fome que dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA) faz contra a transposição do Rio São Francisco (NR – O bispo retomou sua greve de fome em 4 de outubro, dia da Festa de São Francisco, emitindo seu ponto de vista em carta aberta à população, em que se lê: “O senhor (referindo ao presidente Lula) não cumpriu sua palavra. O senhor não honrou nosso compromisso. Enganou a mim e a toda a sociedade brasileira. Uma nação só se constrói com um povo que seja sério, a partir de seus dirigentes. A dignidade e a honradez são requisitos indispensáveis para a cidadania. Portanto, retomo o meu jejum e oração. E só será suspenso com a retirada do exército das obras do eixo norte e do eixo leste e o arquivamento definitivo do Projeto de Transposição de águas do Rio São Francisco. Não existe outra alternativa. (...) A vida do rio e do seu povo ou a morte de um cidadão brasileiro”. Leia a carta completa em http://www.umavidapelavida.com.br/carta—brasil.html).
Artistas e outros aproveitadores de plantão, que vivem sob ar-condicionado no “sul-maravilha”, já foram lá dar seu apoio e, evidentemente, tentar amealhar algumas lasquinhas da briga. Desgraçadamente, no Brasil, muitos ainda vivem desse expediente!
É de se supor que o padre só tenha recorrido à autodestruição depois de esgotadas todas as possibilidades de diálogo e de, ele próprio, ter se convencido de que a transposição não é a solução para a seca da região.
Há gerações ouve-se falar da seca do nordeste e da necessidade de eliminá-la. Muitos políticos elegeram-se empunhando essa bandeira. Até um órgão pontual foi montado, desmontado e recriado - a Sudene - e muitos escândalos registraram-se por conta da seca que, segundo registros históricos, emagrece o povo e engorda os coronéis.
A perenização de rios menores através do bombeamento de águas do caudaloso São Francisco é uma proposta discutida há décadas.
Desde o começo contou com a oposição das empresas energéticas que usam a água do “velho Chico” em suas usinas. Enquanto estava só no papel, formaram-se opiniões contrárias e favoráveis. Quando o governo agiu, surgiram os entraves judiciais e exageros, como a greve de fome, que rende holofotes, mas não atende aos reais e seríssimos interesses do sertanejo.
Em vez de o padre estar em greve de fome e o governo irredutível na sua posição, o que deveria ser transmitido à sociedade, com a urgência que o caso requer, é a certeza de que o projeto de retirar água de um lugar para abastecer o outro atenderá (ou não) às carências regionais.
As lideranças da região que estiverem alinhadas com a causa regional, não com o coronelismo, o caciquismo ou com a política menor de alguns segmentos religiosos, têm a obrigação de forçar o debate e, se necessário, requisitar o conhecimento de especialistas desengajados da política regional para oferecerem pareceres tecnicamente isentos. O povo tradicional massa de manobra e grande vítima de toda intolerância e politicagem não pode ficar à mercê dos interesses de grupos quando o que lhe interessa é resolver o seu problema, pouco importando de onde venha a solução.
O sertanejo nordestino não pode, mais uma vez, ficar prejudicado pelos coronéis e interesseiros de plantão que, historicamente, fazem a miséria daquele povo...
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo (ASPOMIL)
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