Uma proposta do governo federal pode fechar as portas das escolas especiais. Na região, duas das principais entidades que atendem esse tipo de público protestam contra a “ameaça” das crianças e jovens especiais serem transferidos para o ensino regular. As Apaes (Associações de Pais e Amigos do Excepcionais) de Franca e Batatais se manifestaram contra, seguindo orientação da Federação Nacional da Apaes. Juntas, as unidades esperam coletar mais de 7 mil assinaturas para enviar ao MEC (Ministério da Educação) pedindo mudanças no projeto.
Com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, do MEC, as escolas especiais perderiam o caráter de escola e funcionariam como centro de apoio aos deficientes para atendimento contrário ao período escolar. Em Franca, a medida atingiria 600 alunos da Escola de Educação Especial “João Maria Vianey”, da Apae, em atividade desde 1982.
A diretora da unidade, Niura Agostine, acha que os usuários têm direito de escolher se estudam na entidade ou em escolas normais. “A Apae não é contra a inclusão, mas discordamos que fechem as escolas especiais. A criança e os pais têm o direito de escolher onde querem estudar. Algumas crianças têm um déficit cognitivo muito acentuado e nem poderão ser inseridas numa escola normal. Quando têm condições, nós o fazemos”, disse. No ano passado, 60 alunos foram encaminhados para escolas regulares pela associação.
Niura aposta na inclusão, mas de outra forma. “A inclusão seria ótima se primeiro capacitassem os professores, os prédios fossem adaptados para deficientes e as classes menos numerosas”.
A Apae de Batatais também seguiu orientação da Federação Nacional e enviará esta semana um abaixo-assinado ao MEC. A entidade atende hoje 369 alunos. A secretária da entidade, Lidiane Leandri, acredita que deve seguir para o Ministério um documento com pelo menos 5 mil assinaturas contra a mudança imediata. “Somos a favor da inclusão social destes nossos alunos e a defendemos, mas não desta forma, imposta, como o governo quer fazer”, disse ela, que afirmou que só neste ano inseriu nas escolas públicas quase 70 alunos atendidos pela entidade.
Em Franca, a Apae conseguiu coletar 2,7 mil assinaturas de pais e colaboradores e já encaminhou para o MEC. A dona de casa Maria Rezende, 44, é uma das mães que assinaram o documento. A filha dela Talita, 11, que tem retardo neurológico, estuda na Apae há dois anos e meio depois de tentar ser alfabetizada e incluída pela rede estadual de ensino. “A Apae é tudo para nós. Antes de estudar lá, minha filha era quieta e não conversava. Hoje deu um salto, está bem melhor”.
Maria não tem boas recordações do um ano e meio que a filha estudou em escolas públicas regulares. “Foi uma tristeza quando freqüentou a escola normal, pois os alunos batiam nela, não faziam amizade porque ela não conversava e os professores queriam aprová-la sem ter aprendido a ler. Não tem condições de voltar”.
A mãe não pode pagar pelo ensino particular. “Só meu marido trabalha. Temos mais filhos. São quatro pessoas para sustentar. Dou todo apoio para que a escola da Apae não seja extinta”.
OPINIÃO DO ENSINO
Com a aplicação da medida, os alunos especiais seriam redirecionados para as redes municipal e estadual de ensino. Leonádia Macarini, gestora de educação especial municipal, não acredita que o processo acontecerá em massa, mas acha a iniciativa “necessária e possível” e diz que a rede já tem condições de absorver tal público. “A inclusão deve acontecer de forma gradativa e consciente. Nas escolas municipais de Franca, que atendem 280 deficientes mentais, físicos, visuais e auditivos, já temos pedagogos especializados para dar assistência tanto a crianças com dificuldades de aprendizagem como especiais. Também já adaptamos 52 das 84 escolas para recebê-los”.
A Secretaria Estadual de Educação e Diretoria Regional de Ensino informaram, via assessoria de imprensa, que não se posicionariam em relação à proposta de inclusão do MEC antes da medida ser lançada oficialmente. A assessoria disse que não era possível informar ontem quantos estudantes especiais estão incluídos na rede em Franca.
O MEC não se pronunciou a respeito ontem. Em reunião recente sobre o tema, o Ministro da Educação, Fernando Haddad, demonstrou abertura para rever a proposta (leia mais em texto nesta página).
Colaborou Alessandro Macedo
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