O estudante Ícaro Corrêa Taveira, 17, tem um estilo irreverente. Na família sertaneja, ele é o único que curte hip hop e tem o cabelo rastafári. “Quando decidi mudar radicalmente o visual, muita gente não me reconheceu. No início, fiquei com receio do corte de cabelo, mas hoje, sete meses depois, já me acostumei e gosto muito”, disse.
O jovem é considerado a “ovelha negra” da família. A expressão é utilizada para caracterizar quem se destaca no grupo por apresentar um comportamento bem diferente da maioria, às vezes, até rebelde. O termo é usado porque a maioria das ovelhas que nascem é branca e clara. Quando há uma alteração genética e nasce uma negra, ela é considerada diferente das outras.
Apesar do estilo não ser o esperado pela família, o jovem não enfrentou grandes pressões em casa. “Minha família sempre me apoiou, mesmo eu tendo surpreendido a todos com o visual”. Já com os amigos, a história foi outra. Eles pegaram pesado quando viram o garoto com cabelo rastafári. “Eles zoavam muito dizendo que era visual de um largado, mas eu nem ligava. Hoje, a galera acostumou com o meu estilo”.
Apesar de soar negativamente, para a psicóloga Marluce Fagundes Carvalho, ser ovelha negra não é, necessariamente, uma característica ruim. “Quem é diferente dentro de um grupo vive situações diferentes. Isso é importante porque aprende formas distintas de lidar com os conflitos do cotidiano”. E embora a pessoa não se enquadre no que pensa a maioria, ele(a) não deve ser discriminado(a). “Quando o jovem sempre quer quebrar as regras da sociedade, é porque ele está perdido e quer chamar atenção constantemente, porque sente necessidade que o outro o enxergue. Precisa de conversa e diálogo”, explicou a psicóloga Márcia Ricci.
No rebanho da família Berigo, composta por oito núcleos com, aproximadamente, três pessoas cada, as estudantes Ana Paula, 15, Ana Laura,15, e o vendedor MBS, 18, se consideram as ovelhas negras da família tradicionalmente católica. Grande parte dos Berigo vai à missa todos os domingos e curte música sertaneja. Já as ovelhas acreditam em Deus, mas repudiam qualquer religião, curtem rock’n roll e gostam mesmo é de usar roupas escuras - de preferência roxas e pretas.
Para Ana Paula, apesar da família não aprovar o visual, ela se sente bem assim. “É o meu estilo e não pretendo mudar só para agradar à maioria”. Irritada pela filha sempre usar preto, a mãe de Ana Laura chegou até a proibi-la de utilizar cores escuras. “Ela queria que eu desse prioridade para as claras. Mas não tem nada a ver comigo”. O jovem MBS já pintou o cabelo de azul, vermelho e roxo. Foi ao show da banda preferida (o Evanescence), em São Paulo, sem a permissão dos pais. E pegou a moto do primo para dar uma volta na cidade, sem, ao menos, ter CNH (Carteira Nacional de Habilitação). “Surpreendo algumas pessoas com o meu jeito, mas meus pais sabem que eu sei qual é o meu limite”.
Segundo a psicóloga Marluce, o jovem que hoje é a ovelha negra da família pode mudar seu estilo quando entra na vida adulta. “A adolescência é uma fase em que o jovem ainda está se estruturando, construindo aquilo que vai ser no futuro e, justamente, por ser uma fase de transição pode ser que aquilo que ele é hoje seja revisto no futuro. O “ser diferente” pode significar apenas uma etapa da construção da personalidade”.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.