Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio trazem uma realidade que deve assustar o sapateiro do País. De exportador de sapa-to, o País está se transformando em exportador de couro.
Segundo o governo, o faturamento das exportações do setor coureiro deve ultrapassar, em 2007, os R$ 2 bilhões, o maior índice de toda a história. Já o faturado com a exportação de sapatos e demais componentes deve fechar em R$ 1,9 bilhão.
Na prática, significa o seguinte: ao invés de exportar o sapato com alto valor agregado - ou seja, pronto, incluindo no preço a expertise do sapateiro - o Brasil inverteu o jogo e começa a vender o couro para outros países produzirem. Pior: entre os grandes compradores do couro tupiniquim, destaque para Itália (nosso concorrente mais próximo na qualidade) e China (nosso concorrente mais direto no quesito quantidade).
O processo observado não é novo, nem é restrito ao setor calçadista. Começou na época do Brasil colônia, quando mandávamos, quase de graça, o pau-brasil para produzir móveis de alta classe, que voltavam ao País custando os olhos da cara dos endinheirados da época.
Não é só. O mesmo processo continua a acontecer na cafeicultura, onde o Brasil é o segundo produtor mundial de grãos. Embora grande produtor, o País está atrás da Alemanha no ranking de industrialização do produto, mesmo sem os germânicos terem, em seu território, um mísero pé de café. O que acontece é simples: a Alemanha compra, por um valor reduzido, a matéria-prima, beneficia o produto e vende, por pelo menos cinco vezes mais, o produto final.
O Brasil precisa decidir, portanto, o que quer ser quando crescer. Franca tem posição estratégica nesse sentido já que, em nenhum outro lugar do País, existe mão-de-obra tão qualificada e passível de agregar valor ao sapato quanto aqui. O que acontece na terra das três colinas, portanto, pode ser o farol para guiar o setor calçadista nacional.
Nesse sentido, a cidade serve de exemplo menos negativo. Embora as vendas de couro para o mercado externo apresentem alta de quase 30%, o saldo ainda é positivo para o calçado. Em sapatos, a terra das três colinas exportou U$ 109 milhões em 2007. Em couro, foram US$ 54,61 milhões. Significa que, ao menos por enquanto, a opção de Franca tem sido exportar capacidade. Tomara que continue assim.
AGONIZANTE
Esta coluna considerou incorreto o termo utilizado por este Comércio, em sua manchete do último dia 2 de dezembro para definir a situação da Calçados HB, uma das mais tradicionais indústrias calçadistas do País. Ao que consta, a empresa enfrenta uma situação complexa, mas está longe de agonizar. O que pode acontecer, e o próprio dono da empresa, Miguel Betarello, deixa claro, é um reescalonamento da produção, em que Franca deve perder espaço para a unidade de Aracati, no Ceará.
DIFERENTE
Não significa, sobremaneira, que a empresa agoniza. Mesmo que feche as portas em Franca, o grosso da produção da Agabê, hoje, é confeccionado no Ceará. Ruim para Franca, sem dúvida, mas não podemos medir a saúde da empresa apenas pela situação dela na cidade.
ADIVINHÃO
Já que a moda, em todas as categorias, é tentar adivinhar o futuro, este colunista, na tentativa de tornar-se uma versão masculina de mãe Dinah, dará seus pitacos para o setor calçadista em 2008. Anotem agora, pois, as previsões de “Pai Schiavoni” para o próximo ano. E cornetem, se ele estiver errado.
PAI SCHIAVONI 1
A indústria de calçados de Franca sobreviverá. Contra as mais críticas previsões, a situação, em 2008, será menos ruim que em 2007. Dessa forma, os donos de fábricas de sapato continuarão a chorar suas pitangas, mas nenhuma grande quebra ocorrerá. Haverá uma diminuição no tamanho das fábricas, que raramente empregarão mais de 500 funcionários, mas o setor vai sobreviver.
PAI SCHIAVONI 2
As gigantes do setor, que atravessaram, nos últimos anos, severas dificuldades, vão estabilizar-se. Não significa que voltarão ao posto de potências nacionais, mas ocuparão o espaço que lhes é reservado. A Samello, modesta, voltará a produzir, mas pouco. Sândalo e Agabê exportarão mais, investindo em qualidade, e continuarão a manter suas bases em Franca.
PAI SCHIAVONI 3
E para não dizerem que só falei obviedades e coisa genéricas...o nível de emprego no setor calçadista terá ligeira alta. Acredito que 2008 fechará com mais de 33 mil empregados no setor. Hoje, são quase 29 mil. Hoje com 760 indústrias, Franca fechará 2008 na casa das 800 fábricas de sapato. O couro terá aumento nas exportações, mas ainda perderá para o sapato pronto como principal fonte de exportações na cidade. Ainda assim, a diversificação econômica de Franca fará o setor perder um pouco de espaço, o que tornará a cidade menos dependente. Quem viver, verá.
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