No último século e meio, a fotografia talvez tenha sido uma das atividades mais difundidas do mundo. Com uma queda indiscutível para a arte, outra para ciência, foi através da fotografia que o mundo passou a se descobrir. Das mãos de fotógrafos pioneiros, ainda na metade do século 19, operando seus daguerreótipos, às diminutas máquinas digitais de hoje, passaram todo tipo de sentimento e relação humana, as transformações do mundo e da sociedade. Só isso, por si, já daria um livro. Portanto esse assunto não se estenderá.
Nas mãos de um amador, um viajante atemporal ou um amante da natureza, uma câmera fotográfica significa a chance de poder registrar cenas e imagens que, mais tarde, servirão para sua apreciação e a dos amigos. A partida de futebol, o batizado do filho e o churrasco de fim de ano estarão todos lá, caso alguém queira se lembrar. Já pela ótica de um profissional da fotografia, sua câmara é o receptáculo que tem o poder de congelar a história e o tempo. Repórteres fotográficos ou fotojornalistas estão nessa linha de frente, onde nada escapa.
Em 22 de janeiro, o fotógrafo do Comércio da Franca, Tiago Brandão, 25, saía para uma reportagem em que tentaria identificar lugares na cidade onde a população estivesse obtendo água. Franca estava com o fornecimento interrompido pelas fortes chuvas do início do ano, que haviam danificado o sistema de distribuição da Sabesp.
Quase retornando para a redação do jornal, viu Márcia Jerônima Campos levando nos braços seis garrafas com água. Ela estava com os dois filhos, Daniel e Gabriel, gêmeos de 7 anos (à época), em um piscinão abandonado na Avenida Major Nicácio. O fotógrafo aproximou-se, identificou-se e pediu para fotografá-la. Enquanto conversa comMárcia, um dos meninos, brincando, mostrou um pequeno peixe que havia apanhado no local. Nesse momento, o outro garoto, Gabriel, caía dentro de um poço de quatro metros de profundidade e que estava cheio de água.
A seqüência do que aconteceu mostra, de um lado uma mãe desesperada que, movida pelo instinto atirou-se na água para salvar o filho, mesmo sem saber nadar. Do outro, o profissionalismo e a concentração de Brandão que registrou o salvamento da criança que estava prestes a se afogar.
Por esta seqüência de fotos, publicada no dia 23 de janeiro pelo Comércio da Franca (algumas delas reproduzidas nessas páginas), Tiago Brandão foi o vencedor do Prêmio Esso de Fotografia 2007, maior honraria do jornalismo brasileiro. A premiação, ocorrida no tradicional hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, no último dia 4, foi a primeira para um veículo de comunicação da região. Mais que isso, Brandão, um dos mais jovens fotógrafos a ganhar o Esso, também foi o primeiro do interior de São Paulo a receber o prêmio de uma das categorias principais em toda a história do certame, que completou 52 anos.
Ao concorrer com outros quatro profissionais, o fotógrafo do Comércio tinha poucas, mas boas expectativas. Sabia do potencial que as fotos representavam, mas não acreditaria que fossem levá-lo tão longe. “Minutos depois de fazer as fotos, liguei para a editora-chefe, Joelma Ospedal, contando o material que tinha em mãos. Disse que era importante, mas não sabia que fosse ter tanta repercussão”, disse Tiago.
E repercussão foi o que não faltou. As imagens foram publicadas por mais de 80 veículos de comunicação no Brasil e no mundo. Emissoras de TV, sites e jornais europeus e americanos fizeram com que seu trabalho fosse visto por milhões de pessoas.
Mas como nem tudo são flores, Tiago Brandão sentiu na pele o que outros profissionais de sua categoria já viveram: o dilema ético e moral que cerca um trabalho dessa natureza (leia apoio nessa página). Criticado, recebeu até ameaças contra seu filho, por internautas que sugeriram jogar o garoto no mesmo poço para ver a reação do pai.
Superadas as críticas, o inédito Prêmio Esso nos 92 anos de história do jornal Comércio da Franca, premia a própria empresa, mas premia muito mais o talento, coroado com certa dose de sorte, e a competência de Brandão.
No dia da premiação, acompanhado da mulher, Pâmela, da presidente do Conselho de Adminstração do Comércio, Sônia Machiavelli e de Joelma Ospedal, Tiago Brandão disse que os momentos da divulgação do nome do único premiado, já que não há segundo e terceiro colocados, são um misto de sentimentos angustiantes. “Você passa a não escutar mais nada, parece que as coisas estão acontecendo como num filme em que o som desaparece”, disse.
Ao anunciar o vencedor, o mestre de cerimônia não disse o nome do profissional, mas o nome do trabalho inscrito. “O vencedor é ‘Mãe salva filho em piscinão’”. Passou-se um átimo de segundo para que Brandão e as pessoas que o acompanhava se dessem conta do que havia acontecido, de que era ele o vencedor e todos explodiram num grito.
Mais emocionada do que o fotógrafo, que precisou se controlar e se dirigir ao palco, a editora- chefe Joelma Ospedal não se faz de rogada: “dei vexame, sim, no Copacabana Palace. Chorei até me acabar. A emoção que se sente dentro de um ambiente daquele, ao lado de centenas de profissionais que atuam na sua área, é indescritível”, disse ela, para quem o prêmio de Tiago banha toda a equipe e deve ser comemorado por cada um dos companheiros e pela empresa. “Agora que experimentei essa sensação, quero ir lá com mais freqüência”, disse ela num claro recado para o resto da equipe.
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