Bom-senso


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Certa vez em Ituverava um rapaz me abordou para, no dizer dele, uma consulta. Disse que, dirigindo uma camioneta, se envolvera num acidente de trânsito com um ciclista e queria saber, no meu entender, quem estava errado. Perguntei-lhe se era legalmente habilitado e a resposta foi positiva. Eu lhe disse então que minha opinião era desnecessária, pois ele sabia como havia sido o acidente, conhecia as regras de circulação e portanto também sabia quem era o culpado. Sugeri-lhe que fizesse o que sua consciência mandasse. Atinar bem com o que se faz e assumir as conseqüências é apenas uma questão de senso. De bom-senso. Em Abaetetuba (PA) a adolescente de 15 anos, acusada de furto, ficou detida um mês na Delegacia de Polícia, e passou todo esse tempo na mesma cela com cerca de vinte homens. Qualquer pessoa com um pouquinho de juízo poderia prever o que aconteceria à menina em tal situação, e isso leva a crer que os responsáveis por isso ou agiram movidos pelo sadismo ou então não têm o discernimento mínimo para exercer a função. A que ponto chegou a falta de senso! Em que rumo vai a humanidade? O bom-senso tem o poder de fazer raciocinar, manter-se no limite do razoável, do aceitável, agir da melhor maneira possível e evitar um monte de problemas. Com ele a vida fica mais leve e a gente, mais livre; é possível saber o que é melhor e, especialmente, o que é mais correto. Amizade é melhor do que inimizade. A verdade é melhor do que a mentira. Ser honesto é melhor do que desonesto. Conter o ímpeto consumista é melhor do que se endividar além da capacidade para comprar coisas com o intuito único de impressionar os outros, de manter as aparências. O bom-senso evita que se passe por bobo pensando que engana os outros quando na verdade se está enganando a si próprio. É comum a pessoa dizer: ‘o médico vai ficar bravo comigo porque eu não segui as recomendações dele’. Isso é ingenuidade. Para o médico, nenhuma diferença faz se o paciente é disciplinado ou não; para o paciente, sim. Quando fazia oitiva de adolescentes infratores, eu conversava muito com eles e dava um monte de conselhos, mas no fim deixava bem claro que, se acatassem ou não, para mim não mudaria nada. Se continuassem na vida criminosa, as conseqüências disso pesariam sobre as costas deles, não sobre as minhas; a minha incumbência seria apenas de processá-los, e eu ganhava era para isso mesmo. Tivessem, portanto, bom-senso. Um jovem que eu estimo muito reclamou para mim que estava indignado com o professor de filosofia porque este só dava boa nota se escrevesse exatamente o que ele queria e que ninguém podia discordar dele. Dizer o quê? Preste a devida atenção nas aulas porque assim você capta o que o professor passa e na prova terá condições de responder às questões como ele quer. Você não tem benefício nenhum afrontando o professor. Discordar dele? Até pode, mas, antes, leia pelo menos um décimo dos livros que ele já leu. Em suma: pare de reclamar e faça a sua parte; tenha bom-senso. Volta e meia alguém escreve que, ao invés de multar, as autoridades de trânsito deveriam promover campanhas educativas, conscientizar os motoristas. Em outras palavras: pode dirigir feito um louco por uns tempos, pode até tirar algumas vidas, mas só por uns tempos porque depois disso a gente vai começar a punir. Eu não vejo nenhuma graça nessa coisa de complacência quando vidas estão em jogo. Não chega de tanta morte no trânsito? Precisa gastar dinheiro do contribuinte para dizer aos motoristas que eles estão obrigados a ser prudentes, cumprir as normas de tráfego? Eles não sabem disso? Se não sabem, devem ser proibidos de dirigir. É uma questão de senso. De bom-senso. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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