Trânsito anárquico


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Parece que um novo ‘estado’ impera na cidade com o trânsito ‘an-arché’. Pode ser até interessante para alguns essa liberdade muito bem definida por George Woodcock como: ‘(...) acreditar no desenvolvimento heterodoxo do pensamento e do ideário libertário (...)’. Curiosamente, fazendo um paralelo entre o real e o fictício e fugindo um pouco da triste realidade, encontraremos alguns personagens de desenho animado em nosso trânsito. Acredito que muitos ainda se recordam da famosa ‘Corrida Maluca’ produzida pelos Estúdios ‘Hanna Barbera’. Transitando pelas ruas da cidade é possível ver pessoas reais agindo como se fossem o ‘Dick Vigarista’ com o seu carro “Máquina do Mal”, realizando manobras arriscadas e inconseqüentes que provocam acidentes; o “Bomba Bala” veículo usado pela ‘Quadrilha da Morte’ - um bando de gângsteres premeditando se dar bem na corrida usando de estratagemas nada aconselháveis que colocavam os demais competidores em risco; o simpático “Gato Compacto” pilotado por ‘Penélope Charmosa’, com um peculiar bomhumor, representando muito bem a grande maioria de nossas mulheres que dão o toque feminino de prudência às nossas ruas; e ainda, outro simpático personagem, ‘Peter Perfeito’, em seu “Turbo Terrífico”, um exímio cavalheiro e perfeito condutor assemelhando-se àqueles que dirigem numa sociedade como a nossa, totalmente carente desse tipo de comportamento no trânsito. Para finalizar, restam os dois vermes, aqueles de coração de pedra, indesejáveis e insuportáveis – os irmãos ‘Rocha’ –, oriundos da Idade da Pedra (parecidos com o Capitão-Caverna), com aquela maneira estúpida e agressiva de lidar com tudo na vida, competindo naquele carro de pedra, não respeitando nada nem ninguém, vivendo sem regras, sempre prontos para cometerem insanidades sem limites. Na “Corrida Maluca” não havia, mas bem que poderia ter uma personagem endiabrada com sua motocicleta barulhenta para representar a parcela de endemoninhados motoqueiros que “ainda” teimam em existir por aqui. A ficção imita a vida por uma simples razão; os criadores destes personagens tiveram como inspiração o mundo real, baseado em pessoas reais e em seus temperamentos. A diferença entre o desenho animado e a realidade no trânsito é que vidas são ceifadas de verdade e famílias são destruídas sem perdão. Ora, se existe um Código Nacional de Trânsito com leis que regulam o uso do leito carroçável que vão desde o uso obrigatório de equipamentos até a observância das mais variadas regras criadas por especialistas no assunto, com multas para possíveis infrações e, ainda, sanções administrativas aos imprudentes e inconseqüentes condutores, fica a pergunta: por que não se aplicar severamente a “lei” de trânsito? Por que a acomodação? O aumento da fiscalização é salutar, a instalação de radares móveis ou fixos é indispensável em pontos estratégicos para coibir abusos. Será que uma cidade com mais de 300 mil habitantes não deve ter um engenheiro de trânsito para “pensar” melhor nossos caminhos? Afinal, se o trânsito que movimenta os seres humanos não for prioridade, subentende-se que vidas também não são prioritárias. E, infelizmente, como já sabido, esta cidade não é composta somente de ‘Penélopes Charmosas’ e de ‘Peters Perfeitos’. RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca.

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