Ensinamentos de Pracuch


| Tempo de leitura: 4 min
Crise, China, queda nas exportações, problemas de logística, queda na produção. Ao que tudo indica, as palavras acima, entoadas como verdadeiros mantras pelos calçadistas da Franca, terão de ser trocadas, em breve, por um outro verbete: investimento. Isso é, para quem quiser se manter competitivo no mercado. A questão é simples: um sapato chinês, por mais barreiras comerciais que enfrente, não entra em qualquer país do mundo, hoje, a mais de US$ 7. O sapato francano, por mais custos que se cortem, não pode entrar em qualquer mercado do mundo a menos de US$ 15. Os dados são da Abicalçados (Associação Brasileira da Indústria de Calçados) e do Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçado de Franca). Como já dito em outras colunas, a única saída que cabe ao empresário francano é o investimento - e pesado - no setor onde ele pode competir: o ramo da qualidade. Se não podemos vender tão barato quanto a China, precisamos inverter o jogo: na verdade, são os chineses que não podem produzir com tanta qualidade. Parece uma lógica estranha, mas funciona. Os sapatos italianos, por exemplo, são referência mundial. Possuem marca e estirpe. Custam, por assim dizer, pelo que a marca Itália representa: design, estilo, conforto e, por assim dizer, “fama”. São, contudo, muito caros. Não chegam aos mercados consumidores por menos de US$ 30 o par. É aí que o Brasil pode levar vantagem. A opinião não é, devo dizer, deste colunista, embora concorde sem reservas com ela. Zdeneck Pracuch, um dos mais respeitáveis consultores do setor, foi o responsável pela informação, ainda durante a última Francal, quando tive a oportunidade de entrevistá-lo (e dele aprender muito) durante quase uma hora. É na competição com produtos de maior qualidade, porém, que Pracuch focou, na ocasião, seus comentários. “Que design? Todos os nossos chamados designers copiam as mesmas revistas, as mesmas tendências italianas... Até hoje a pátria do desenho é a Itália e continuará sendo. Nós estamos sentados na classe econômica neste assunto”, disse, na ocasião. Eis que entra a palavra do começo do texto: investimento. Alcançar a excelência não é tarefa fácil. Exige persistência, disposição, planejamento e, acima de tudo, investimento. Um tipo de investimento que, em Franca, ainda é incipiente. Algumas poucas empresas - e posso citar sem medo de errar a Agabê, a Jacometti, a Sândalo e a quase finada Samello apostaram, de diferentes formas, nesse processo. Não é possível afirmar que seja um sucesso, mas é um caminho que começa a ser trilhado. Talvez o único possível. Finalizo esta coluna com mais algumas sábias palavras de Pracuch. “Eu vejo que alguns vão sobreviver absolutamente tranqüilos porque se modernizaram, investiram e se prepararam. Outros ainda têm tempo de reagir. E meu conselho para estes últimos é enxugue, reduza e aumente o valor individual de seu produto. Não adianta querer deixar Franca em busca de incentivos de outros Estados e municípios se levar os mesmos vícios francanos, se não mudar a mentalidade”. Melhor forma de dizer, impossível. TRABALHADORES E vamos a mais dados sobre o trabalhador francano. Levantamento do Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca) mostra que apenas 1,81% dos trabalhadores do setor possui formação acadêmica de nível superior. Outro 1,62% possui nível superior incompleto. Ao mesmo tempo, só 0,13% é analfabeto. A maior parte dos trabalhadores da indústria calçadista tem o nível fundamental completo (27,42%). Na seqüência, aparece o nível médio completo (25,48%), o fundamental incompleto (25,10%) e o médio incompleto (18,44%). ANÁLISE Os números mostram que, embora competente no trabalho, os sapateiros ainda precisam evoluir, e muito, quando o quesito é educação. Uma gama mais qualificada de profissionais simboliza avanço em questões como design e planejamento estratégico. Além disso, segundo mostram diversas estatísticas, o valor pago a profissionais com nível superior costuma ser maior, devido à sua especialização. Vale a pena pensar sobre o perfil. JAÚ Também convém contar aqui uma tendência que envolve os donos de banca de pesponto e microempresário de Franca. Com a queda no valor pago pelas grandes empresas por par (que já chegou a ser de R$ 5 por par na década de 1990 e hoje está em aproximadamente R$ 3), muitos têm optado por pegar serviços, por empreita, em outros pólos calçadistas de São Paulo, em especial Jaú. Embora não existam dados oficiais, pespontadores ouvidos por esta coluna afirmam: de cada dez pares terceirizados em Jaú, três vão para mão-de-obra francana. CONSUMO Consolido, aqui, a informação dada, com exclusividade, pelo ex-titular desta coluna, o jornalista Antônio Carlos Coutinho em maio último: os brasileiros devem comprar 599 milhões de pares de calçados neste ano, no valor total de aproximadamente 17,8 bilhões de reais. A previsão, já consolidada, era da BMA, uma empresa de consultoria em marketing de Novo Hamburgo/RS, que há 12 anos pesquisa o consumo de calçados no País.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários