Depois de um dia inteiro de escola, casa e curtição, a estudante Julia Comparini Benelli, 15, ainda tem pique. Ela separa um tempinho, de preferência antes de dormir, para se lembrar de tudo que fez e ainda escreve, com detalhes, o que viveu durante aquelas quase 24 horas. E é assim desde que ela tinha uns dez anos, quando começou a registrar sua vida em diários. A prática se repete todos os dias, sem exceção, durante mais ou menos 20 minutos. Além das palavras, ela ainda faz colagens de papéis de bala, chocolates e ingressos de shows, cinema e teatro para provar tudo o que viveu naquela data. “Guardo tudo que me traga recordações, às vezes, colo até alguns panfletos que recebo na rua. Quando o dia é normal, escrevo o básico, mas, quando acontecem coisas, aí escrevo a noite inteira”, disse ela, aos risos.
Assim como Julia, muitas outras meninas reservam uma horinha para escrever em seus inseparáveis diários. Os meninos são minoria, mas os mais emotivos também se arriscam. O conteúdo é vasto e haja linha para descrever festas, novas amizades, brigas, paqueras, desilusões amorosas, crises, problemas profissionais e o que mais acontecer ou a inspiração mandar. Mas mesmo com tanta liberdade, uma regra é básica: o diário é pessoal e intransferível. “Eu escrevo sobre o meu dia, como estou me sentindo, mas não deixo ninguém ver, ou melhor, quase ninguém porque minha amiga, às vezes, dá uma espiadinha”.
A amiga de Julia, Ana Emília da Silva Santos, 15, também não passa um dia sem escrever no seu diário e, desde que começou, há mais ou menos quatro anos, guarda todas as anotações. “Tenho umas quatro agendas escritas”. Para Ana, não importa o que tenha acontecido, vale a pena registrar tudo. “Todo dia tenho alguma coisa diferente para escrever. Coisas legais ou tristes, não importa”. E a mania é tanta que as amigas garantem que não abrem mão de escrever por nada. “Posso chegar tarde em casa que mesmo assim escrevo antes de dormir”, disse Ana Emília. Julia completa. “Quando saio de casa, ele vai junto”.
Mas, o que há de tão sensacional em descrever a vida em páginas de papel? Para Ana Emília é quase uma terapia. “Quando escrevo, é como se fosse um desabafo. Não que eu não tenha amigos para conversar, mas falta alguma coisa”.
Para a psicóloga Márcia Ricci, o motivo é a busca da auto-afirmação. “Para a construção da identidade, os adolescentes têm vontade de anotar e confidenciar coisas. Para eles, é importante provar que existem e fizeram alguma coisa”. Outro fator que conta bastante nessa fase é o medo. “Na dúvida se serão aceitos por determinadas atitudes e pensamentos, eles preferem escrever. Sem contar o fato de ser uma forma de extravasar, que, além de ser importante, faz toda a diferença na formação deles”. Márcia confirma que os meninos são avessos a essa prática. “Eles preferem buscar uma forma mais introspectiva de se auto-afirmarem. As mulheres choram, escrevem; eles são reservados”.
Mas se engana quem pensa que só as garotas mais novinhas se dedicam a descrever a vida, o dia a dia, nos diários. Tem muita “marmanjona” que assume essa mania sem problema. A estudante Ana Luiza Silva, 24, é uma dessas. Ela começou a escrever quando tinha 16 anos e já esgotou cinco diários, que guarda até hoje. O problema é que, em virtude das provas e trabalhos da faculdade, não tem mais tempo de escrever todos os dias. “Mas, sempre nos fins de semana eu o coloco em dia”.
Ana Luiza não guarda papéis ou embalagens, mas, em compensação, além de escrever, se arrisca a fazer poesias. Para Márcia, Ana Luiza está no caminho certo. “As pessoas mais maduras devem escrever para o exercício da habilidade e da paixão pela língua escrita. Afinal, quando crescem, o medo de se manifestar não deveria existir. Caso contrário, a escrita representa imaturidade”.
Quando o assunto é o que as outras pessoas vão falar, Ana Luiza não se intimida. “As pessoas acham engraçado quando falo que escrevo em diário. Algumas acham besteira, mas a maioria das pessoas que sabem, como meus amigos, acha bacana e respeita a atitude”.
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