Das 760 fábricas de calçados existentes em Franca, só 13 empregam mais de 500 funcionários. Entre elas, também, cerca de 500 produzem até mil pares por dia. São pequenas e médias empresas, isoladamente, empregam pouco e têm sua produção voltada para o mercado interno, já que não possuem mecanismos, dinheiro nem condições suficientes para se aventurar a buscar clientes em outros países.
Mesmo entre as grandes exportadoras, notícias de dificuldades são comuns. Nessa categoria estão incluídas a quase extinta Samello e agonizante Agabê. As duas, além de grandes empregadoras, tornaram-se sinônimo de calçado masculino. A primeira mais que a segunda. A Samello passou por sucessivas crises até que no final de 2005 os acionistas decidiram tirar a direção que havia sido empossada e colocar Miguel Sábio de Mello no comando da empresa. Sua função, aparentemente, foi de fazer a transição para o encerramento das atividades.
Dona de uma marca que ainda é a mais lembrada do mercado, a Samello fechou sem pagar funcionários e fornecedores. Deve, segundo o próprio Mello, voltar a produzir no final de janeiro do ano que vem.
Ao elencar os fatores mais determinantes para a crise em sua empresa, disse que variação cambial, inflexibilidade dos custos de produção, carga tributária e encargos são os principais. As dificuldades administrativas também pesaram. Entre 2003 e 2004 a Samello passou por uma administração profissional que não deu resultados e não salvou a empresa, o que levou a família a retomar o controle.
Mas o pior, disse o empresário, foi a valorização do real frente à moeda americana. Como exemplo, falou da exportação de um par de sapatos de US$ 30, quando a cotação estava três por um: “Nessa época eu recebia R$ 90 reais por par, sendo que nos últimos meses, não chegava a R$ 55. Não adianta eu querer que o comprador cubra a diferença porque ele não fará isso”.
Miguel Sábio concorda que a indústria de ponta sempre deu preferência para o mercado externo, já que, internamente, encontrava um consumidor limitado. A Samello volta moldada para uma nova fase da empresa, com produção pequena e produtos de alto valor agregado. “Creio que essa seja a nova realidade de qualquer grande empresa”.
Para Miguel Betarello, da Agabê, é provável que a indústria calçadista de Franca passe por intensas transformações, mas o seu fim não é plausível. Em sua opinião, a nova empresa de calçados deverá, obrigatoriamente, ser pequena, com uma produção limitada, mas com produtos voltados para um seleto consumidor, aqueles convencionados em classes C, D e E. “A indústria não desaparecerá totalmente. O que vai ocorrer é uma mudança de gestão e na forma de produzir”, disse Betarello.
Após desistir de encerrar a fabricação na unidade de Franca, o empresário disse que a Agabê vai fugir do mercado dominado por grandes magazines. O alvo, afirmou o empresário, serão os clientes com maior poder aquisitivo, no Brasil e no exterior.
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