A indústria calçadista de Franca, tal qual a conhecemos hoje, deverá desaparecer - ou ao menos se modificar completamente - em no máximo 20 anos. Isolamento político, falhas de gestão, conservadorismo empresarial, surgimento de novos pólos produtores e uma aptidão especial para a autodestruição podem ser os ingredientes que darão fim uma história de mais de 80 anos do predomínio da fabricação de calçados na economia da cidade.
Os dados confirmam a hipótese. A cidade, que já produ-ziu, em 1986 - 11 anos atrás, portanto 35 milhões de pares de sapatro deve fechar 2007 na casa dos 26 milhões de pares. Os números do emprego também preocupam. A cidade já chegou a empregar 33 mil sapateiros no começo do milênio. Hoje, o total não chega a 29 mil.
Para especialistas ouvidos pelo Comércio, não se trata mais de cogitar se isso ocorrerá, mas quando. Paradoxalmente, dois grandes empresários do setor também acreditam que a indústria, em sua configuração atual, não resistirá muito tempo.
O surgimento e decadência de uma fábrica de sapatos parece estar tão incorporada à paisagem de Franca que já não é mais novidade. A população e o mercado só se dão conta do problema quando um grande nome anuncia que deixará de produzir e no dia seguinte baixa suas portas.
Assim foi com a Samello, que há um ano e dois meses dispensou os funcionários e desligou as máquinas da tomada. Na seqüência, veio a Sândalo. As duas empresas não produzem mais um único par de sapatos, mas mantêm uma equipe de criação e supervisionam de perto os terceirizados que produzem com suas marcas.
Por último aparece a Agabê. A empresa, que já foi a maior empregadora calçadista, anunciou que sairia do mercado francano transferindo suas atividades para Aracati, no Ceará. Os planos só mudaram depois que um incêndio na fábrica do Nordeste forçou a empresa a manter a fábrica funcionando em Franca com pouco mais de 500 funcionários. O incêndio de lá salvou os empregos daqui.
Sinais de fadiga
O observador atento talvez nem seja pego de surpresa pela notícia, pois os sinais de fadiga estão por toda a parte. Começam com a tradicional choradeira pela desvalorização do câmbio, entenda-se o dólar, e continuam com a concorrência asiática.
O professor de economia Hélio Braga Filho, coordenador do Ipes (Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais), vinculado ao Uni-Facef (Centro Universitário de Franca), traça um perfil do empresariado do ramo de calçados em Franca que dá pena.
Oportunista, desconfiado, nada politizado, despreparado para a gestão e acomodado são apenas alguns dos adjetivos.
Em seus estudos, Braga Filho mostra que o peso das grandes empresas na absorção de mão-de-obra e no volume total de produção vem caindo desde o fim da década de 80, período coincidente com a abertura do mercado brasileiro às importações. Já naquela época, pondera ele, não houve quem tivesse o cuidado de olhar para a China, que já dava demonstrações de crescimento industrial acelerado. Os problemas começaram para o empresariado justamente com a estabilidade econômica.
De 1990 para cá, as grandes empresas esboçaram um nítido movimento de desaparecimento, enquanto surgem novas e pequenas plantas, com gente pouco capacitada para a gestão no comando da empresa.
O professor sustenta que o empregador não se politiza, não fortalece o seu sindicato e não se apodera das instituições existentes, voltadas para o setor. Mais que isso: mantém uma cultura de isolamento e uma postura predatória em relação aos concorrentes, ao contrário de novos mercados onde a interação ente as empresas é encarada como fator de sobrevivência. “Em Franca, saber que um concorrente está encerrando suas atividades é motivo de comemoração. O empresário pensa apenas em si. Não consegue perceber que ele se enfraquece à medida que a indústria se enfraquece”.
Isso tudo estaria levando a indústria de calçados de Franca na direção do desaparecimento. De acordo com o economista, seria prudente que a cidade começasse a pensar em novos rumos, porque o calçado, mesmo que não acabe completamente, em nada lembrará a grande produção dos anos 80 ou 90. “Se não nos preocuparmos, a indústria pode desaparecer, não totalmente, mas de tal forma que em nada lembre o que foi no passado. Seria bom que a cidade procurasse novos alternativas fora do calçado”.
Contundente em sua análise, o consultor Zdenek Pracuch disse que a situação seria outra caso os empresários fossem produtores de calçado, não de divisas. Pouco afeitos a mudanças e inovações, os fabricantes locais seriam vítimas de sua própria obsolescência, acomodação e falta de preparo, não tendo como competir com os fabricantes asiáticos, especialmente os indianos. “Gostaria que saíssem dessa situação, mas acredito que seja muito difícil voltar ao que era antes”, disse. “Creio que a tendência seja desaparecer completamente”.
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