<p>No dia 6 de junho do ano passado, uma passeata do MLST (Movimento de Libertação dos Sem-Terra) por Brasília terminou com um confronto entre manifestantes e a Polícia Militar do Distrito Federal, deixando o saldo de 41 pessoas feridas e mais de 400 presas. O líder do grupo era o militante Bruno Maranhão, ativista de esquerda, fundador do Partido dos Trabalhadores e do movimento pela anistia a presos políticos na ditadura militar. </p>
<p><br />Nos dias 24 e 25 de novembro, Maranhão esteve na Fazenda Boa Sorte, em Restinga, para participar do encontro que marcou os dez anos do movimento que coordena no Brasil. A calça jeans surrada, a camisa vermelha e um tênis de segunda linha escondem a história de um homem que nasceu numa das famílias rurais mais tradicionais de Pernambuco.</p>
<p><br />Em Recife, seu endereço é uma mansão de três andares, onde a mãe mora; em São Paulo, fica em um apartamento duplex em Higienópolis, bairro dos quatrocentões paulistanos. </p>
<p><br />O aristocrata do movimento Sem-Terra é engenheiro mecânico, amigo íntimo do presidente Lula, pegou em armas no Brasil e no Chile contras as ditaduras dos dois países e foi exilado na França. Em 1997, rachou o MST, fundando o dissidente quase homônimo. </p>
<p><br />Ao Comércio da Franca, Bruno Maranhão concedeu entrevista exclusiva onde criticou a monocultura da cana-de-açúcar. “O álcool não é a salvação do mundo”, disse, convicto. Confira os principais trechos do bate-papo. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Qual a principal bandeira do MLST?<br />Bruno Maranhão -</strong> Seja aqui em Restinga, em Franca ou em qualquer parte do Brasil, defendemos a apropriação de propriedades que não cumprem sua função social, como destaca a Constituição Federal. E não podemos mais falar apenas em áreas improdutivas, porque o índice de produtividade é de 30 anos atrás, completamente defasado. Queremos que o governo entenda que uma fazenda que ocupa terras da União, não paga seus impostos, abusa da mão-de-obra, causa danos ambientais e não cumpre as legislações trabalhista, previdenciária e fiscal também pode ser alvo de um projeto de reforma agrária. O MLST se reserva ao direito de invadir e protestar contra essa situação. </p>
<p><strong>Comércio - Qual o motivo de sua vinda à Fazenda Boa Sorte?<br />Maranhão</strong> - O MLST está completando 10 anos e estamos realizando eventos em todos os Estados onde temos nossos assentamentos. Aqui em Restinga, o objetivo principal é esclarecer os assentados sobre o que está ocorrendo no campo, principalmente com o avanço da cana-de-açúcar. </p>
<p><strong>Comércio - O movimento é contra a cultura canavieira?<br />Maranhão -</strong> Não somos contra o biocombustível ou o agronegócio. Nossa posição é contra a forma como eles estão avançando no campo. Queremos acabar com a monocultura da cana. Plantar cana, sim, mas com a condição de manter outras culturas igualmente. Veja essa região, ela está sendo tomada pela cana. Nas cidades vizinhas a Ribeirão Preto, vocês sabem melhor que eu, o plantio da cana está acabando com a soberania alimentar, expulsando as famílias de suas terras. Tanto a cana como o café ou a borracha, em ciclos diferentes, serviram como elemento de desenvolvimento, mas serviram, também, para concentrar renda, desenvolver a miséria e aprofundar a pobreza onde quer que se instalassem. O álcool brasileiro não é a salvação do mundo, como muitos acreditam. </p>
<p><strong>Comércio - É o assédio dos usineiros ou a falta de produtividade dos assentados que mais contribui para eles deixaram os assentamentos?<br />Maranhão -</strong> Podem ser as duas coisas. Nos assentamentos, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) não dá condições estruturais às famílias e verba para reforma agrária é coisa que não se fala. Sem condição de produzir, aquele que era trabalhador rural registrado, com carteira assinada, terminou plantando e cortando cana para o usineiro da região. Reforma agrária não pode ser vista como um pedaço de terra dado ao trabalhador e pronto. Ninguém precisa desta esmola. Um projeto de reforma agrária sério é muito mais do que isso. Reforma agrária tem de ser vista como um processo completo de produção e gestão, formação, educação, saúde, divisão de riqueza e democratização da terra. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor tem uma relação antiga e próxima com o presidente Lula. Longe de qualquer paixão, como seu governo vem tratando a reforma agrária?<br />Maranhão -</strong> Em relação a Fernando Henrique Cardoso, avançou bastante. FHC foi um atraso para o País; estraçalhou o Brasil. No governo Lula houve conquistas, com maior respeito aos movimentos sociais, mas em relação à reforma agrária, especificamente, o avanço foi pequeno, aquém do que precisamos. </p>
<p><strong>Comércio - MST, MLST, Contag... Não é muita sigla para um objetivo comum? O debate não se perde no meio de tanta ideologia?<br />Maranhão -</strong> Creio que o debate com os movimentos deva ser mais profundo, mais adequado à realidade que o Brasil precisa. Ou os movimentos sociais avançam ou não iremos conseguir nada. Precisamos mostrar como os assentamentos são organizados socialmente e que a qualidade de vida de um trabalhador num assentamento é superior ao de um trabalhador de usina de açúcar. Lutamos para isso </p>
<p><strong>Comércio - Se é consenso que a reforma agrária e necessária, por que os movimentos envolvidos não conseguem convencer a opinião pública? Por que sua implementação é tão difícil?<br />Maranhão -</strong> Existe uma crise de opinião pública com relação à reforma agrária fomentada pelo próprio governo através do Ministério da Agricultura, representante dos grandes nomes do agronegócio, além do Poder Judiciário que, historicamente, atua entrelaçado aos interesses dos latifundiários. Há também uma campanha deliberada e generalizada de setores da mídia que faz com que os movimentos sociais pareçam baderneiros. Qualquer ação de massa que se prepare já vem com essa imagem negativa. </p>
<p><strong>Comércio - É a velha mania de culpar a mídia...<br />Maranhão -</strong> Não é isso. Há setores da grande imprensa que deturpam tudo o que os movimentos fazem. Felizmente há exceções. Você está me dando oportunidade de expressão. </p>
<p><strong>Comércio - A ação no Congresso, em junho do ano passado, não contribui para piorar a imagem do movimento?<br />Maranhão -</strong> Creio que contribui sim. Mas a ação que ocorreu foi uma e a imagem na mídia foi outra. As cenas foram montadas, mostrando as seqüências em ordem invertida como se eu estivesse instigando os manifestantes a agir com violência. É claro que as pessoas que chegam nessa situação de confronto ficam descontroladas. Uma moça que já tinha apanhado ficou nervosa e quebrou um computador. As pessoas cansam de apanhar. </p>
<p><strong>Comércio - De novo o senhor deixa subentendido que a culpa é da mídia?<br />Maranhão -</strong> Olha, você tem todo direito de entrar no Congresso, como qualquer cidadão. O problema foi a forma como aquilo foi produzido e mostrado na TV. Eu não preciso de uma coisa dessas para chamar a atenção da imprensa. Tenho 40 anos de militância, uma história de luta, sem baderna, sem nada. Participei da luta armada na ditadura, fui exilado político no Chile, e lá lutei também. Fundei o movimento pela anistia, fui exilado na França. Tentaram juntar minha figura pública para acabar com o MLST, minha amizade com o presidente Lula. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor passou dois meses preso. Valeu passar por isso?<br />Maranhão -</strong> Sempre fizemos ocupações pacíficas. Um ano antes, ocupamos os oito andares do Ministério da Fazenda, em Brasília, com 1,2 mil pessoas, sem que tivesse ficado um vidro quebrado. Em Brasília, no entanto, depois do incidente, o Aldo (Rebelo, ex-presidente do Congresso) assumiu sua porção fascista, mandando prender 600 pessoas, sendo que muitos deles nem estavam presentes no confronto com a Polícia. Aldo foi o nosso Pinochet, enchendo um ginásio de gente presa. Sofremos perseguição e fomos atacados de todas as formas, mas muita gente, por outro lado, veio nos apoiar. </p>
<p><strong>Comércio - Qual o saldo político para o MLST no momento?<br />Maranhão</strong> - Temos um projeto nacional para a reforma agrária. Posso afirmar que temos uma proposta e queremos discuti-la com a sociedade.</p>
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