Extremismo


| Tempo de leitura: 3 min
No filme A outra história americana, Edward Norton interpreta um extremista adepto do nazismo, que é condenado por assassinato. No presídio, convivendo com um rapaz negro, começa a repensar os ideais a que até então se apegava. A respeito das ações insanas praticadas sob o domínio do ódio, um dia lhe perguntam: ‘Algo do que fez até agora tornou sua vida melhor?’. Se quer saber a resposta, assista. Para ficar em pé, toda estrutura precisa de equilíbrio, que a Física define como “estado de um corpo que se mantém sobre um apoio, sem se inclinar para nenhum dos lados” (Dicionário Michaelis). O equilibrista do circo não cai porque se mantém de forma a que o peso do seu corpo fique dividido igualmente sobre a corda; se pender para um dos lados, vem a queda. Na teoria é fácil, não há segredo nenhum. Na prática... Em qualquer situação, como regra, entendo que se deve buscar o equilíbrio, que está no meio. Para mim, o extremismo, embora necessário em certas ocasiões, é algo que foge do normal, do natural. Para quem quer se livrar da dependência do álcool, do cigarro, de quaisquer drogas, por exemplo, passar sem elas é uma conduta extremista porque exige grande sacrifício. Mesmo depois que se vence a crise de abstinência, não pode haver meio-termo; nada de uso, ainda que moderado; um gole, uma tragada e se cai novamente no abismo. O extremismo no caso é essencial para corrigir o desequilíbrio decorrente de outro extremismo. Quem se torna dependente sai do normal, do ponto de apoio, da base, e aí há que se atacar o outro extremo para que as coisas entrem no eixo, voltem novamente ao centro. A doença é um desequilíbrio da saúde. Há coisas que não têm nada a distanciá-las dos seus opostos. Sair da verdade é entrar na mentira. Sair da honestidade é ingressar na desonestidade. Não existe espaço entre. Assim, dizem que quanto a tais virtudes é preciso radicalismo. Permitam-me discordar. Quem age movido por integridade de caráter, sem compactuar com imoralidades ou ilegalidades, não é extremista: é apenas correto. Verdade, sinceridade, honestidade estão no núcleo, no centro. Ser sincero, honesto, verdadeiro é ser normal, é estar no ponto exato de suporte. Quem não o é, está em desequilíbrio, fora da normalidade. Quando há necessidade de ações consideradas extremas é porque se busca trazer para a normalidade algo que se afastou dela. É redundante dizer “extremamente honesto”, “completamente sincero”’, “totalmente fiel”. Ou se é honesto ou não, sincero ou não, fiel ou não. Quem não está habituado a certas ações acha difícil praticá-las. Para quem está acostumado a fingir, é difícil ser verdadeiro. Ações consideradas penosas para uns, entretanto, são simples para quem está condicionado a elas. Não há sacrifício nenhum em dizer a verdade e agir com honestidade para quem é sincero, é honesto. A pessoa saudável, centrada, luta pelos objetivos almejados sem pensar em prejudicar os outros, em violar a ética. Ser espiritualmente são é estar no seu núcleo, distante dos extremos. Dominar sentimentos e desejos nocivos requer força espiritual, harmonia entre o físico e o psíquico. A firmeza de princípios deve prevalecer quando alguma ação ou sentimento subjacente, imoral e/ou ilegal, está querendo se impor, quando há risco do naufrágio daquilo que precisa permanecer na tona. Quem é probo, sincero, não o é por conveniência, mas sim por uma imposição íntima; não para impressionar os outros e sim, apenas, satisfazer a própria consciência, ficar em paz consigo mesmo. O problema é que se vive uma inversão de valores. Chegou-se a um tal nivelamento por baixo que um ato de honestidade acaba virando objeto de rasgados elogios. É preocupante. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários