O pagador de promessas


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DEFICIENTE VIAJANTE - O ex-caminhoneiro Arley Gibbon, que vive em cadeira de rodas, quer chegar a Aparecida. Viagem começou há um ano e só deve terminar em março
DEFICIENTE VIAJANTE - O ex-caminhoneiro Arley Gibbon, que vive em cadeira de rodas, quer chegar a Aparecida. Viagem começou há um ano e só deve terminar em março
O ex-caminhoneiro Arley Gibbon, 37, quer andar 4 mil quilômetros sobre uma cadeira de rodas para cumprir uma promessa que fez. Há 17 anos, sofreu um acidente de caminhão, ficou dois anos em coma e outros 12 deitados numa cama. No ano passado, fez uma promessa. “Falei para Deus que se ele me permitisse sentar numa cadeira de rodas, eu rodaria 2 mil quilômetros para ir de Manaus (AM) até a casa da mãe Dele, em Aparecida (SP), para agradecer-lhe. Agora, por onde passo, dou meu testemunho”. Franca foi um dos pontos de descanso escolhidos por ele. Arley está em Franca desde o último sábado. O romeiro, como pede para ser chamado, deixou a capital do Amazonas há quase um ano, quando viajou de barco entre Manaus e Porto Velho (RO) e segue de cadeira de rodas pelo resto do percurso (veja o trajeto no quadro abaixo). Ele diz que, desde dezembro de 2006, percorre as estradas do País com a cadeira de rodas. “Ando bastante durante o dia. Tem dia que saio às 6 horas e só paro ao entardecer. Acho que já andei uns 3380 quilômetros. Já poderia deixar a cadeira e chegar de outra forma porque ultrapassei os dois mil prometidos, mas não quero”. Arley disse que anda pelo acostamento das rodovias e não tem medo de sofrer outro acidente. “Peço para Jesus e Ele passa na minha frente”. Para descansar, se alimentar, tomar banho e lavar suas roupas, fica em hotéis (quando tem recursos e consegue doações) ou pousa em postos ou rodoviária. Algumas vezes, por não ter acesso a banheiros não adaptados para deficientes, fica sem tomar banho. Na segunda-feira, estava sem se lavar havia quatro dias, pois não conseguiu passar pela roleta do sanitário da Rodoviária de Franca. Na bagagem, leva poucos objetos. Ele enumera com facilidade: um cobertor, um agasalho, duas bermudas, dois pares de chinelos, rádio para distrair ouvindo Canção Nova, garrafa térmica, duas garrafinhas de água, um mapa do Brasil, raio-x de suas próteses e luvas (de ciclistas). “Já gastei 114 luvas desde que deixei Manaus. Preciso proteger as mãos para conseguir movimentar a cadeira pelos pneus”. Para ele, a maior dificuldade enfrentada na viagem é a falta de resistência da cadeira de rodas. “Ela quebra muitas vezes. Já estragou umas 28 vezes. Tenho de pedir ajuda para consertar. Uma vez, uma rádio me deu pneus novos”. OUTROS SONHOS Percorrer tantos quilômetros vai além de apenas cumprir a promessa. Ele quer mostrar mais com esse percurso. “Quero voltar a ser útil perante a sociedade porque o preconceito é tão grande com quem usa cadeira de rodas. O pessoal olha de lado, pensa que não servimos nem para tapete, mas são as pernas do cadeirante que estragaram, a mente está boa, as mãos funcionam, é o mesmo ser humano”, disse. [FOTO2] A esperança de Arley é se levantar e voltar a andar assim que chegar em Aparecida. Se o sonho for realizado, já sabe o destino que dará à cadeira de rodas. “Tenho fé nisso. Vou doar para alguém que esteja precisando. Vou achar uma pessoa que necessite dela num hospital”. O romeiro, que chegou no último sábado vindo de Araxá (MG), deixará Franca assim que conseguir ajuda para consertar sua cadeira de rodas. A intenção dele é seguir para Ribeirão Preto e chegar a Aparecida daqui a três meses. Ele está confiante em cumprir a promessa e quis deixar um recado para algumas pessoas. “Peço para que os cadeirantes, quem usa bengalas ou que por algum motivo estão ‘estourados’ não desistam e mostrem que são capazes porque Jesus existe, Ele cura”. Arley garante que suas peripécias foram retratadas pela imprensa. A reportagem entrou em contato com o jornal Diário do Amazonas, de Manaus. Fred Novaes, subeditor do caderno Cidades, informou desconhecer o caso. “A história não foi noticiada pela grande imprensa da região”, disse.

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