Nossa língua


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O dicionário define: sotaque é a pronúncia peculiar a um indivíduo, a uma região. Franca e os francanos, claro, têm o seu, produto de assimilações que eclodem num imbroglio de idiomas e regionalismos diversos. Dos dialetos tupi-guarani, emprestando arcaísmos de um português castiço, passando pelas imigrações árabe e italiana, pela descendência afro, desembocando em influências mineiras, sulistas e goianas (não nos esqueçamos dos tropeiros que auxiliaram na construção de Franca!), entre várias outras, inclusive, atualmente, as das mídias, as articulações estruturais estão explicitadas nas construções de frases, nas abreviações surpreendentes (‘badacama’ para ‘embaixo da cama’ é uma delas), enfim, na nossa prosódia. Uma das maiores marcas do sotaque francano é a pronúncia de vocábulos contendo a letra ‘R’, de forma semelhante à maneira como esse fonema aparece na língua inglesa. Algo característico, aliás, do interior paulistano, cuja influência da imigração norte-americana na cidade justamente designada Americana, se estendeu por todo o Estado e para além dele, como em algumas regiões do Sul. Cidades como Tupã, Marília, Piracicaba, Campinas, entre outras, mantêm pronúncia anglicanizada, como nós, das palavras que contêm o malfadado ‘R’ (já que somos alvos de chacotas, especialmente por cariocas e paulistanos, no que caracterizam como um modo ‘caipira’ de falar). A inflexão francana também é muito peculiar e, se refinarmos nossos ouvidos para a sua percepção, constataremos, de novo, a impressionante similaridade com a inflexão da pronúncia inglesa, numa fala, por assim dizer, ‘cantada’. Outra marca menos evidente, mas ainda presente na nossa expressão verbal, está no acento italianado dos oriundi, imigrantes italianos que no início do século passado chegaram às lavouras de café do interior do Estado. Um dos exemplos mais evidentes dessa contribuição está na persistência em trocarmos foneticamente a vogal ‘e’ pelo ‘i’. ‘Gente’, por aqui, vira ‘genti’, com a pequena variante na pronúncia italiana, que fecha o ‘i’: nossas terminações em ‘te’ se transformam em ‘chi’: ‘genchiiii’. A vogal ‘O’ também é freqüentemente trocada pelo ‘U’ ‘Vai uma saladinha de ‘tumachi’ aí?’ Ou seria ‘too much’? Para o leitor entender e reconhecer a Itália na nossa fala, basta a leitura em voz alta de alguns versos da paródia que Juó Bananére fez do poema mais famoso de Gonçalves Dias: “Migna terra tê parmeras, /Che ganta inzima o sabiá,/ As aves che stó aqui, /Tambê tuttos sabi gorgeá”. Salvo os exageros e a comicidade dos versos, não podemos deixar de reconhecer que é extremamente comum em nossa região essa substituição do ‘L’ pelo ‘R’, com a omissão do ‘I’ (palmeira torna -se mesmo ‘parmera’), não? A título de ilustração, Juó Bananére é o pseudônimo literário do engenheiro, poeta pré-modernista e jornalista paulista Alexandre Ribeiro Marcondes. O personagem Juó Bananére é um espalhafatoso ítalo-paulistano, morador do bairro do Bexiga no início do século passado, dono de uma fala particular, que mistura indiscriminadamente português e italiano parodiando a fala baldia dos primeiros imigrantes italianos que ocuparam os bairros de São Paulo e posteriormente migraram para o interior do Estado. Alguns lingüistas imputam a omissão dos plurais, muito comum na nossa região, a essa mesma influência italiana, outros, ao hibridismo tupi-português e ainda ao francês, cujo ‘S’ nas terminações plurais só aparecem na grafia, nunca na pronúncia. Assim, temos, diariamente, em qualquer conversa, expressões como ‘as menina’, ‘os menino’, ‘ as panela’. Outra colaboração relevante é a da colônia árabe em Franca. Sônia Machiavelli Corrêa Neves lembra a tese do saudoso filólogo João Penha, de que o registro ‘barrer’, para ‘varrer’, isto é, a substituição do fonema ‘V’ pelo ‘B’, usual entre o nosso povo, especialmente na área rural, tem suas raízes na língua árabe. “Dr Penha considerava isso uma herança árabe, comentando que o imigrante sentia enorme dificuldade em pronunciar o fonema ‘ V’ e daí, ‘ barrer’, ‘bassoura’ e outros”, diz Sônia. Elementos sertanejos de Minas Gerais também temperam acentuadamente nosso caldeirão lingüístico. Dessa região herdamos basicamente as abreviações, muitas vezes inconcebíveis para os falantes da Língua Portuguesa, como na frase cômica ‘pó pô pó’, que significa ‘pode pôr pó (de café)’. Mineiros também são os nossos diminutivos, muito utilizados na linguagem coloquial: ‘poquim’, ‘pequeninin’, ‘negocim’, ou, para sermos mais precisos, ‘nigocim’. Embora essa ‘normatização inculta’ da linguagem regional denote, aparentemente, pobreza intelectual, inversão de valores e tudo o mais que possa apontar e desmerecer o nosso vão preconceito de letrados, se esmiuçarmos nossa fala, encontraremos nela, um interessante acervo cultural, uma amostra do quão viva é uma língua que aglutina sentidos, empresta sonoridades, se constrói jocosa para fazer frente ao cotidiano, como forma de transparecer a mentalidade de uma região. A propósito, o grande estudioso e dicionarista Luís da Câmara Cascudo, em seu livro Viajando o Sertão, era veemente na defesa das riquezas regionais. Para ele, o sertanejo não fala errado. Fala diferente de nós apenas. “Sua prosódia, construção gramatical e vocabulário não são atuais nem faltos de lógica. O sertanejo usa, em proporção séria, o português do século XVI, da era do descobrimento. Há poucos anos é que a rodovia conseguiu prendê-lo, em massa, ao litoral e sua linguagem se está modificando ao contato do nosso palavrear brasileiro, totalmente diverso.” O autor, num exercício de futurologia, lamentava ainda a possibilidade de padronização lingüística que poderia vir a ser imposta pela mídia: “Daqui a algum tempo o sertanejo falará como todos nós. O ambiente, renovado pelos jornais, escolas, visitas e viagens, atravessa um período de transformação rápida.” Será mesmo?

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