Franca 2007, Veneza 2024


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As chuvas não se tornaram mais copiosas com o passar dos tempos, basta ver o índice pluviométrico dos últimos anos. Como explicar então as enchentes acontecidas em nossa cidade, mais precisamente nas partes baixas das Avenidas Ismael Alonso Y Alonso e Dr. Alfredo Palermo? Ora, é simples. Sufocaram os córregos dos Bagres e do Cubatão tirando-lhes o direito de extravasar, de transbordar, de espairar suas águas nas áreas de várzeas que eram, nada mais nada menos as duas pistas marginais transformadas em pistas de rodagem asfaltadas. Toda área plana em torno a um curso d’água é uma área natural de transbordamento de um rio quando há uma chuva torrencial. Quando invadimos esta área, estamos cometendo apropriação indevida das margens. Elas foram moldadas naturalmente para receber inundações, e nós, urbanóides, as utilizamos para transporte automobilístico. Quanta idiotice ! O certo, o lógico, é que as avenidas marginais fossem construídas acima do nível das várzeas. Mas só isto não resolveria o problema de inundações em Franca. Alguns anos atrás “engessaram”, isto é, canalizaram os dois citados córregos. Pergunto: foram realizados estudos e cálculos hidráulicos e hidrogeológicos para a execução de tais obras? A Secretaria de Planejamento e Obras da Prefeitura Municipal tem em seus arquivos estas planilhas de cálculos? Ou foi tudo feito ao “vai da valsa”, sem qualquer estudo técnico por parte dos secretários de planejamento urbano dos administrações municipais dos últimos 20 anos? Bem, o canal dos Bagres está aí, assim como o do Cubatão. Não vai chover mais que nos últimos anos, mas com certeza, nos próximos anos os córregos vão ter que suportar mais água. Acima de Calçados Bettarello, do lado direito para quem vai em direção ao Jardim Bueno, está sendo implantado um novo loteamento de proporções grandiosas, denominado, se não me engano “Jardim Piratininga”’. Toda aquela área, até aqui solo natural e portanto sujeito a absorver grande parte das águas pluviais, vai ser impermeabilizada com asfalto e construções e a declividade do novo loteamento está toda direcionada para o córrego do Cubatão. Em outro ponto da cidade foi implantado, já com algumas residências construídas e todo asfaltado, outro grande loteamento denominado “Parque Moema”, também com toda a água pluvial direcionada para o córrego dos Bagres. Isto sem contar ainda com a enorme contribuição pluviométrica advinda futuramente daquela enorme área existente na cabeceira do Córrego dos Bagres, de propriedade do Samello e que um dia será loteada. Ora, qualquer criança sabe que, se atualmente os córregos já possuem seus leitos com capacidade saturada para o extravazamento das águas de chuva, fica fácil prever o que acontecerá quando os novos loteamentos estiverem contribuindo em sua totalidade. O diagnóstico ? Será o caos. É claro que atualmente fica inviável o alargamento ou aprofundamento da calha dos córregos, mesmo porque tais obras atingiriam valores quase incomensuráveis e fora das possibilidades da administração municipal. Não houve planejamento nos últimos 20 anos, agora é conviver com as inundações. Não há o que fazer, estrangularam os córregos e canalizaram as chuvas. Seria trágico se não fosse cômico. Num futuro próximo o posto Galo Branco, que fica na confluência das avenidas marginais, poderá, quem sabe, se chamar “Pato Branco”, já que galo não sabe nadar. O Boteco do Lu poderá ter outra denominação, talvez “canoa furada”. Infelizmente Franca, outrora uma bela cidade, comemora seus 183 anos ainda respirando, mas com água já pela cintura. Quando completar 200, com certeza não se transformará ainda numa Atlântida, visto que temos as garbosas três colinas e outras tantas espalhadas sendo loteadas sem qualquer planejamento, mas poderemos ser, quem sabe, uma Veneza? Que bom, vamos incrementar o turismo: Rifaina é aqui! Os moradores das proximidades das avenidas marginais terão que aprender a conviver com o barro e a lama das enchentes. Os que residem em patamares mais altos terão a visão (seria privilegiada?) do mar, lá embaixo. Com as inundações virão prejuízos para os comerciantes instalados nas citadas avenidas e para o município restará reformar eternamente os estragos feitos pela força das águas. Mas é aniversário da Franca do Imperador, vamos comemorar mesmo assim. Parabéns, minha querida cidade hospitaleira e que conserva tradições e histórias, graças à bravura dos seus filhos. Francanos sim, com muito orgulho, até debaixo d’água!!! HÉLIO FRANÇA é engenheiro

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