Divulgado ontem, o relatório semestral do FMI (Fundo Monetário Internacional) - World Economia Outlook - consolida a idéia de que o desenvolvimento mundial passará a ser comandado por três dos quatro países do BRIC - Rússia, Índia e China.
Para o FMI, esses três países conseguiram se “desconectar” da crise internacional, embora ainda seja cedo para avaliar os impactos da desvalorização do dólar sobre suas exportações.
Segundo avaliações do FMI, os três responderão por metade da expansão de 5,2% da economia mundial em 2007. Enquanto isto, o peso da economia americana cairá de 10,7% em 2006 para 7,3% em 2007.
O relatório traça uma visão otimista para a crise - contrastando com as avaliações das instituições financeiras privadas. Prevê uma redução do crescimento dos EUA, Europa e Japão, e manutenção do preço do petróleo em níveis elevados. Apesar de prever que a economia americana crescerá menos que 2% em 2007 e 2008, a avaliação é de que não comprometerá o crescimento mundial, graças aos três novos pólos irradiadores.
Para 2007, o relatório prevê o Brasil crescendo 4,2%, muito abaixo do crescimento dos países em desenvolvimento (8,1%) e abaixo do crescimento mundial (5,2%). Para 2008, a tendência permanecerá a mesma, com o Brasil crescendo 4%, os países em desenvolvimento 7,4% e o mundo 4,8%.
Com tais dados, na média 2004-2008, o Brasil terá crescido 4,1% ao ano, os emergentes 7,8% e o mundo 5,1%.
A descoberta do mega-campo de Tupi e o potencial do etanol transformarão o Brasil em uma potência energética nos próximos anos.
O grande problema do Brasil é não dispor de uma visão estratégica para saber como se colocar nessa nova fase da economia mundial. Não existe essa visão nem no âmbito do governo, nem da iniciativa privada, nem da Academia. Existe no Itamaraty essa visão geopolítica, assim como nas Forças Armadas, mas são posições isoladas.
Prova disso é esse enorme alarido em torno de Hugo Chávez. A eventual aproximação com a Venezuela passa a ser analisada sob uma ótica ideológica incabível, já que se trata de países soberanos, sem nenhuma relação de subordinação entre si. Além disso, qualquer forma de integração ajuda a desbastar radicalismos ou xenofobia.
Essa mesma falta de visão acomete a política econômica. O que o Brasil pretende ser quando crescer? Mero exportador de matérias-primas? A integração com a China se dará na condição de mero suprido de commodities? Qual a estratégia diplomática e comercial para transformar o potencial energético em poder, em capacidade de influir, em capacidade de deflagrar um processo mais acelerado de crescimento?
Não existe a visão integrada. De nada adiante a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) definir setores prioritários, o BNDES montar políticas de financiamento direcionadas, se o BC pratica uma política monetária e cambial capaz de destruir a competitividade das manufaturas e serviços brasileiros.
Enquanto não houver essa visão sistêmica, do lado do governo, o potencial continuará sendo apenas potencial.
BRA PEDE ARRÊGO
A BRA, com dívidas de US$ 100 milhões, seguiu o caminho de Varig e Vasp e entrou anteontem no Tribunal de Justiça de São Paulo com pedido de recuperação judicial, mecanismo que substituiu a concordata com a nova Lei de Falências. Com o pedido, a companhia, que anunciou a suspensão de suas operações neste mês, tenta afastar a possibilidade de um eventual pedido de falência de credores. Com a recuperação judicial, ficam suspensas por 180 dias todas as ações ou execuções judiciais contra a companhia.
Por outro lado, a BRA ficaria obrigada a apresentar um plano de recuperação a ser submetido aos credores, que podem aprová-lo ou não. A idéia é que esse modelo de negócios seja focado no aproveitamento dos 20 jatos que a BRA adquiriu da Embraer, segundo Humberto Folegatti, dono da companhia. “Hoje só há novas posições [na ‘fila’ de entregas de aviões] na Embraer para 2011.
Temos posições para 2008, 2009 e 2010. Temos lugar na fila garantido e um preço muito bem negociado. Isso viabiliza a companhia”, disse o executivo. Folegatti é acusado de ter pedido a suspensão dos vôos da BRA para forçar um novo aporte do Brasil Air Partners - fundo de investimento que detém 20% da companhia. Ele nega. Em 2006, esse fundo (formado por sete fundos) aportou US$ 70 milhões na BRA, mas entrou em conflito com o executivo, que anunciou o seu afastamento da presidência da empresa.
BRASIL X EUA
O Brasil pediu ontem a abertura de investigação na OMC (Organização Mundial do Comércio) contra os subsídios agrícolas concedidos pelos EUA em quase cem programas do governo. Segundo a queixa brasileira, esses programas superam amplamente o teto autorizado, de US$ 19 bilhões por ano. O governo americano usou o seu direito de bloquear em primeira instância o pedido brasileiro, que deverá ser reapresentado no dia 17 de dezembro.
Como o Canadá fez pedido semelhante hoje contra os subsídios agrícolas dos EUA, a tendência é que seja estabelecida uma única investigação. A queixa brasileira foi apresentada pela primeira vez em julho. A partir de então o Itamaraty manteve negociações com Washington, mas, como não houve avanço, decidiu entrar com o pedido de investigação no Órgão de Solução de Disputas da OMC. O Brasil acusa os EUA de ultrapassar os limites autorizados de subsídios em bilhões de dólares em 1999, 2000, 2001, 2004 e 2005.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.