Famílias trancam defuntos sozinhos no velório


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Em uma segunda-feira, à meia-noite, o velório São Vicente de Paulo, em Batatais, estava bem movimentado. Em uma das salas uma família velava uma agricultora aposentada de 83 anos. Pouco mais de meia hora depois, antes da 1 hora da madrugada, o cenário era outro: escuridão total, rua completamente vazia, portas trancadas e portões com cadeados. O que isso poderia significar? Muitos imediatamente pensam que o corpo foi enterrado em um horário excêntrico. Mas não. É apenas uma prática que tem chamado a atenção na cidade: familiares pedem para fechar o velório, vão para casa e voltam no dia seguinte para acompanhar o enterro que, no caso citado, aconteceu às 10 horas. Antigamente era mais freqüente que os rituais fúnebres acontecessem na própria casa do morto. A família envolvida pela dor era amparada por parentes e pessoas amigas que levavam biscoitos, chá e café e todos passavam os momentos de amargura juntos. O crescimento das cidades, que levou insegurança para as pessoas abrirem as portas das casas, e a evolução da medicina, que reduziu o número de pacientes que morrem na própria residência, são algumas das razões que, há décadas, motivaram uma mudança de costumes. Os corpos passaram a ser velados em locais específicos para essa finalidade: os velórios. O que antes era tido como um sagrado dever de solidariedade, parece estar se transformando. Em velórios contam-se piadas, fala-se de futebol, política, fofocas e moda. Para muitos, principalmente as pessoas mais idosas, isso é um grande desrespeito. Mas a nova prática de trancar o defunto sozinho, sem ninguém para velar, chega a ser impensável para alguns. “Isso é o maior absurdo que já vi. Está faltando Deus nas pessoas. É nossa obrigação orar e ‘guardar’ o corpo dos nossos entes em seus últimos momentos na terra”, afirmou a dona de casa Aparecida Elizabete Gomes, 71, que aguardava um ônibus no ponto em frente ao velório. O caso citado no início da matéria não foi o único registrado na cidade este mês. Dois dias depois da morte da aposentada, a situação se repetiu. Desta vez, o ‘defunto solitário’ foi um aposentado com pouco mais de 60 anos. Procurada, a família não quis comentar a opção. Segundo o agente funerário Luís Carlos Grego, a prática tem se tornado comum. Acontece na cidade uma média de 40 velórios por mês e, só em novembro, pelo menos três corpos passaram pelo “recesso” noturno. “Quando a família fala que não quer velar, nós arrumamos o corpo, colocamos em uma sala do velório e trancamos a porta. No outro dia acontece o enterro”, afirmou Grego. VELANDO O ENTE QUERIDO Em Franca, pelo menos até agora, não foram registrados casos de famílias “abandonarem” seus falecidos sozinhos em velórios. No São Vicente, por exemplo, são veladas, em média, 80 pessoas por mês. Todas contam com a presença de familiares e amigos. No local são dez salas e, sempre que há velórios, as salas ficam lotadas. “Já chegou a ter 90 por mês”, disse o funcionário Sebastião Teixeira. No Santo Agostinho, também acontece a mesma coisa. Nada do morto ficar sozinho.

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