<p>Crise, fechamento da Agabê em Franca, dólar com o preço baixo, incêndio que destruiu dois galpões da fábrica do Ceará. A vida de Miguel Betarello, principal executivo da empresa criada por Hugo Betarello, não foi fácil na última semana.<br />Do Ceará, Miguel falou com a reportagem do Comércio. Disse que, devido ao incêndio, não haverá cortes na cidade, mas que a empresa estuda formas de redefinir seus passos na cidade. “Não sabemos ainda o que fazer, mas estamos analisando alternativas para continuar de pé”, disse.</p>
<p><br />Falou ainda que a Europa deve ser o novo foco da indústria calçadista e que a exportação deve deixar de ser maciça para ser menor, mas mais qualificada. “Quem quiser ganhar na quantidade vai perder da China e da Índia”, disse. Confira os principais trechos. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Os calçadistas se queixam, dia sim dia não, sobre o problema do dólar baixo. Dizem que sobreviver de exportação, hoje, é impossível. Com isso em mente, como o senhor analisa as condições do mercado para 2008? <br />Miguel Betarello</strong> - O câmbio realmente é um problema, mas, na minha opinião, e na de outros companheiros do setor calçadista, temos que investir em produtos de maior valor agregado, inclusive para a exportação. É preciso uma mudança de mentalidade para aproveitar o mercado externo onde temos condição de competir: no campo da qualidade. Acho que dificilmente teremos condições de competir, como fazíamos nas décadas passadas, para colocar nossos produtos nos grandes magazines, nos grandes conglomerados, como Wal Mart. Naquela época, competíamos no preço e na qualidade. Hoje, eles vão optar, todos, por produtos da China, da Índia, mais baratos. Nós vamos ter que trabalhar marcas de alto valor agregado, que dão status na vitrine. Teremos que trabalhar com sapatos finos, aprimorando nossa mão-de-obra e design. </p>
<p><strong>Comércio - Franca pode ser beneficiada com essa tendência?<br />Miguel -</strong> Franca sempre foi um grande pólo produtor de calçado e sempre teve mão-de-obra muito qualificada. Não precisamos formar mão-de-obra. Assim que começarmos a ter maior número de sapatos de alto valor agregado, poderá haver uma mudança radical no comportamento das empresas, inclusive com aumento na remuneração. </p>
<p><strong>Comércio - E as pequenas empresas, entram nessa avaliação?<br />Miguel</strong> - Hoje, não. As empresas, especialmente as pequenas, têm uma política quase predatória. Elas trabalham com preços cada vez menores, uma querendo engolir a outra. Precisamos trabalhar para conseguirmos um preço melhor, mais remuneração ao funcionário e melhores ganhos. </p>
<p><strong>Comércio - A Agabê, que já empregou mais de 3 mil funcionários em Franca, tem hoje menos de 600 na cidade. Não é pouco?<br />Miguel -</strong> Tenho 580 funcionários empregados hoje. Já tive, como você disse, mais de 3 mil. Infelizmente, tive que mudar o cenário, tanto da exportação quanto da produção, até pela fábrica do Ceará. Os tempos, hoje, são outros. Não é uma época de ganhos em quantidade, mas sim na qualidade. Adequações são necessárias. </p>
<p><strong>Comércio - Uma manchete do Comércio na semana passada afirmou que a Agabê demitiria quase todos os funcionários em Franca. A decisão só foi revertida devido a um incêndio na unidade de Aracati. O que o senhor tem a dizer sobre isso?<br />Miguel -</strong> Temos o nosso planejamento estratégico e a demissão dos funcionários de Franca era parte dele. Haveria uma nova empresa, a ser tocada pelo meu filho Marcelo, que produziria a linha Betarello e Hugo Boss em Franca, com concentração da produção da Agabê no Ceará. Chegamos a negociar com o galpão da Charm, mas, depois que a unidade de Aracati pegou fogo, tivemos que rever o planejamento. Assim, não haverá mais a mudança do Marcelo criando uma nova empresa. Nossa produção ficará na Agabê. </p>
<p><strong>Comércio - Não haverá demissões?<br />Miguel -</strong> Não haverá. Precisamos definir o que fazer com Franca. Precisamos tomar uma posição para que não tenhamos nenhum problema, principalmente crédito com bancos. </p>
<p><strong>Comércio - Houve pressão?<br />Miguel</strong> - Os bancos, depois da matéria que saiu no Comércio, caíram de pau. Não vou citar nomes, mas três instituições bancárias pediram explicações públicas depois da notícia. Houve ameaça de corte em nossas linhas de crédito. É complicado. </p>
<p><strong>Comércio - Então a produção que era feita em Aracati será transferida para Franca?<br />Miguel -</strong> Estava com 5,5 mil pares na linha de produção de Aracati, todos voltados para o mercado interno. O incêndio causou prejuízos de aproximadamente R$ 2,5 milhões e fez com que a capacidade caísse para 3,3 mil. Os 2,2 mil pares restantes terão que voltar para as esteiras de Franca. Irei montar mais duas esteiras e, com isso, teremos que manter o nível de produção com o mesmo pessoal que temos hoje. A reconstrução do pavilhão novo vai demorar pelo menos oito meses. Nesse período, não vamos dispensar ninguém. </p>
<p><strong>Comércio - No total, quantos pares a unidade de Franca deve produzir?<br />Miguel</strong> - Além dos 2,2 mil pares transferidos de Aracati, a unidade de Franca da Agabê deve continuar produzindo as linhas Betarello e Hugo Boss. São cerca de 1,5 mil pares produzidos diariamente para o mercado externo. O mínimo que teremos de produzir é 3 mil pares por dia, mas pode ser mais. </p>
<p><strong>Comércio - Existe algum investimento previsto pela empresa?<br />Miguel -</strong> Não, é momento de parar. Investimentos estão parados e devem continuar assim. O incêndio em Aracati causou prejuízo de pelo menos R$ 2,5 milhões. Teremos que reconstruir os galpões e este será, com certeza, nosso maior investimento nos próximos meses.<br /></p>
<p><strong>Comércio - É a exportação para a Europa que está aliviando a situação?<br />Miguel -</strong> É o que está salvando, hoje, a Agabê. A exportação para os Estados Unidos praticamente acabou. </p>
<p><strong>Comércio - Não há como retomar essa linha de exportação?<br />Miguel -</strong> Não tem como. Um sapato que eu vendia a U$ 15, U$ 16 eu tenho que vender, hoje, a U$ 22, U$ 23. Eles não têm como pagar, já que não há uma cultura inflacionária nos Estados Unidos. Eles não pagam mesmo e, para exportar por U$ 15, eu tenho que pagar. </p>
<p><strong>Comércio - A Agabê é uma firma tradicional e sempre pagou seus funcionários de forma diferenciada. Isso atrapalha o caixa?<br />Miguel</strong> - Nosso nível de funcionário é alto. Em média, cada empregado tem, pelo menos, cinco ou seis anos de casa. Também não pagamos apenas o piso da categoria. Isso influencia, na nossa opinião, na qualidade do produto que oferecemos, tanto no mercado interno quanto no externo. Não é, na nossa concepção, um problema. Veja, não temos essa política de demitir funcionários mais antigos para diminuir o custo. Apostamos na qualificação e no bem-estar do funcionário como política. </p>
<p><strong>Comércio - A Agabê é, hoje, a última remanescente entre as maiores exportadoras de sapato de Franca nas décadas de 70 e 80. Há futuro à vista?<br />Miguel</strong> - É uma época de mudança, mas estamos tentando salvar a empresa. Não é uma tarefa fácil, mas é possível. Não sei se, na quantidade, poderemos produzir como no passado. Mas não adianta lembrar de uma época que já passou. O futuro é diferente e estamos tentando nos adaptar a ele.</p>
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