N o romance “Ana Karenina’, de Lev Tolstoi, o personagem Levine, ao revelar que duvida da existência de Deus, ouve: ‘Que dúvidas podes ter sobre o Criador, quando contemplas as suas obras?’ O ateu diz que é racional, sem misticismo e não acredita em Deus porque não há prova da Sua existência. Também se alega que as injustiças e atrocidades reinantes no mundo são evidências da ausência de Deus. Não vejo, porém, irracionalidade em acreditar em Deus. O universo e a vida vieram do nada? São resultado do acaso? Não creio. Um poder supremo está por trás da criação. Com a nossa finitude, não temos real noção do infinito, do absoluto, da imanência divina. Se o mundo está tomado por guerras e injustiças, isso é coisa do homem, que possui livre-arbítrio, autogoverno e precisa saber usar melhor a inteligência. Diante da complexidade do universo e de tantos mistérios que a Ciência não explica, é justificável, até inevitável, certo misticismo, mas sem crendices, superstições.
O sertanejo Riobaldo diz: ‘Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo’ (‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa).
Para o saudoso Carl Sagan, fatos extraordinários requerem provas extraordinárias. Para mim, a maior prova do dom do artista são suas obras. A vida e o mundo são evidências inapeláveis da divindade. Não falo sob a ótica religiosa. Deus não tem religião nem pertence a nenhuma. Quem tem religião é o homem. Levine, após convencer-se da existência divina, conclui: ‘As relações das outras crenças com Deus permanecerão insondáveis para mim e não tenho o direito de investigá-las’. E mais: ‘cada minuto da minha existência terá um sentido incontestável, porque está na minha vontade imprimir o bem em cada uma das minhas ações’.
É compatível crer em Deus e na Ciência. O que esta descobre, a meu ver, são fenômenos do mundo, coisas que a natureza possui e permite serem alcançadas pelo nosso entendimento. A descoberta científica se atém ao que a natureza disponibiliza. Só que há uma limitação ao conhecimento humano. Certos mistérios estão fora do alcance da nossa compreensão. Como disse Riobaldo: ‘Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas’. Certas coisas existem e isso basta. Para matar a sede é preciso beber água, mas não é necessário saber que é formada por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Os animais irracionais, sem a nossa inteligência, vivem, não se perdem em crises existenciais.
Do nada, nada nasce; não imagino criatura sem criador, amor sem ternura; cabeça sem face. Acredito em Deus, por todo lado vejo Seus sinais; no céu, no prado, nas plantas, nos animais. Sinto-O no ar que respiro, na brisa do mar, no cantinho que às vezes me serve de retiro; em qualquer lugar, no pensamento, no firmamento, nas árvores à beira do caminho, nos pássaros e nas flores que admiro; na doçura da uva, nos olhos da criança indefesa, na chuva que me pega de surpresa. Ele me dá ouvidos, passa-me calma, preenche-me todos os sentidos.
Pra terminar, um trecho da música ‘Não amo ninguém’: ‘Se todo alguém que ama/ Ama pra ser correspondido/ Se todo alguém que eu amo/ É como amar a lua inacessível/ É que eu não amo ninguém/ (...) Eu não amo ninguém, parece incrível/ Não amo ninguém/ E é só amor que eu respiro’ (Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves).
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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