Passei, de novo, pelas portas de um asilo, neste fim de semana. Vou de quando em quando. Quero me lembrar aonde foi que pensei em colocar meu pai quando, já no finalzinho de sua vida ele nos dava algum trabalho, nada comparável aos transtornos que lhe dei e à minha mãe, ao longo da vida.
Desisti daquele intento, felizmente. Ele morreu como um passarinho, perto de mim, de minha mãe, de minha mulher, de meus filhos e de uma prima-irmã. Olhou-nos como podia olhar. Penso que nos viu felizes, todos juntos. Ficou seguro de que havia cumprido sua missão e adormeceu para sempre. Como sei que muitos são assaltados por essa burra vontade, convido-os a acompanhar comigo como um idoso vê o mundo. E como o mundo os trata:
“Primeiro me trocaram de quarto. Agora ocupo um desvão, que está no pátio de trás. Prometeram trocar o vidro quebrado da janela, porém se esqueceram e todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta minhas dores reumáticas.
Desde há muito tempo tinha intenção de escrever, porém passava semanas procurando um lápis. E quando o encontrava, voltava a esquecer onde o tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem.
Noutra tarde dei-me conta de que minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com meus netos ou com meus filhos não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que dizem.
Às vezes intervenho na conversação, segura de que o que vou lhes dizer não ocorrera a nenhum deles, mas não me ouvem, não me respondem. Cheia de tristeza vou para meu quarto. E faço assim, de propósito, para que compreendam que estou aborrecida e venham buscar-me e me peçam perdão. Mas não vem ninguém...
Numa manhã destas entrou em meu quartinho a minha filha, para varrer. Depois veio um dos meninos. Não me deram bom dia. Convenci-me: sou invisível!
Houve um dia quase feliz. Os meninos vieram dizer que nós iríamos todos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo que não saía. Na data, fui a primeira a levantar. Quis arrumar as coisas com calma. Nós, os velhos, tardamos muito em fazer qualquer coisa, e eu não queria atrasá-los. Fiquei pronta enquanto colocavam as coisas no carro e fui para o saguão a esperá-los. Quando me dei conta, sem um único sinal a mim, partiram. Compreendi que eu não estava convidada, talvez porque não coubesse no carro... Ou porque meus passos tão lentos impediriam que caminhassem a seu gosto pelo bosque.
Meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar, mas eu os entendo, eles vivem o mundo deles. Riem, sonham, se abraçam, se beijam. E eu, já nem sinto mais o gosto de um beijo. Um dia, minha neta, que acabava de ter um bebê, disse que não era bom que os anciãos beijassem recém-nascidos, por questões de saúde... Desde então já não me aproximo. Tenho tanto medo de contagiá-los!
Eu bendigo a todos e lhes perdôo. Que culpa têm de que eu me tenha tornado invisível?” (Do diário da carioca Celeste Viana, coligido pelo jornalista Edward de Souza, a quem agradeço).
NÚMEROS
Franca tem 7 instituições que cuidam de idosos. Os antigos asilos e atuais lares abrigam 135 mulheres e 94 homens, 229 seres dos quais mais da metade não têm parentes. Em todos os lares há um festa mensal de comemoração de aniversários.
Nestas doze ocasiões olham para as caras uns dos outros e é então que esboçam sorrisos. Ou quando voluntários os visitam com doces, carinho, música e ouvidos prontos a ouvir.
EXCLUÍDOS
O idoso está no lar porque a família quer. De cada 10 famílias, 3 mantêm contato com o interno e 7 desaparecem. Funcionários ficam com a res-ponsabilidade de tentar suprir as ausências que complicam os quadros de Parkinson e Alzheimer, doenças que mais agridem os internos. Vovôs e vovós raramente têm motivos para se lembrar de quem não os ama mais.
‘CRECHE’
Funciona na cidade, há um ano, um lar estilo “creche” (idoso é igual criança de novo) que fica com ele quando a família precisa viajar ou se dedicar a algum projeto. Recebe, em média, 15 “hospedagens” ao mês. Modernidade que acalma a culpa?
URINA
Não há como separar o cheiro da urina do cenário dos lares, apesar das instituições primarem pela limpeza. As fraldas descartáveis mudaram o trato com o idoso atingido por incontinência urinária e fecal. Ainda assim, manter os estoques é trabalho para gigantes. Trocá-las duas ou três vezes por dia, trabalho de vocacionados. Mas há vagas para voluntários.
DENÚNCIAS
Sabe aquele caso do idoso que é desrespeitado na casa ao lado da sua? Dá para formalizar denúncia na Polícia ou ao Ministério Público. Os destratores serão visitados. Se o vovô ou vovó tiver seus proventos de aposentadoria utilizados pela família e a ele estiver sendo reservado o quarto dos fundos, o do vidro quebrado ou a condição de nada ou ninguém, promotores poderão pedir sua internação em lares. Lá ele terá gente vocacionada para atendê-lo e, quem sabe, voluntários para visitá-lo, ouvi-lo, se agradarem de suas experiências e histórias de vida.
E, POR ÚLTIMO
No Japão, idosos ficam nas empresas como conselheiros. Nas famílias, o lugar de honra é do mais velho. Tal reverência é própria de países que passaram por graves crises, guerras, onde correu o sangue de pessoas queridas. Neste nosso ainda jovem e inconseqüente País, lugar de velho é nenhum. Ou então, no asilo (ops, no lar), bem longe de nós.
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