Uma senhora, seis cachorros e 14 gatos foram despejados ontem pela manhã de uma casa do Jardim Dermínio, na Zona Oeste de Franca. O imóvel, localizado na Avenida Presidente Rodrigues Alves, foi construído sobre uma mina d’água, em área de risco, e pode desabar. A Prefeitura fez acordo com a proprietária da casa e a desapropriou. A antiga dona desocupou o imóvel, mas, antes que fosse demolido, acabou invadido por Adriana Abrão, que, para complicar a situação, levou dezenas de animais com ela. “A casa não é minha não, é da Prefeitura”, disse a invasora.
Com sotaque estrangeiro e apressada, Adriana pouco falou à reportagem enquanto deixava o bairro. Apenas disse que era chilena, morava na casa havia dois anos e estava feliz por sair dali. “Vou para uma casa emprestada por uns amigos meus na (Avenida) Francisco Marques”.
Daniel Tavares, advogado do Departamento Jurídico Municipal, disse que, por causa da invasão, a Prefeitura precisou entrar com um pedido de reintegração de posse para que a residência fosse desocupada para então ser destruída. “Tentamos desocupar amigavelmente, mas não foi possível. A dona Adriana foi avisada de que precisaria deixar a casa. Ela está ciente da retirada dela e dos bichos desde o dia 5 de novembro. O prazo venceu hoje e tivemos de realizar a remoção”.
Um caminhão de mudanças cedido pela Prefeitura levou Adriana, seus poucos móveis e um dos seis cachorros (que ela não permitiu que fosse levado pela carrocinha) para o novo endereço. Os outros cães e 14 gatos, todos com um pedaço de lã vermelha amarrada no pescoço, seguiram para o Canil Municipal. Clésio Lima, responsável pela captura e remoção dos bichos, disse que os animais ficarão alojados no canil por cinco dias até a dona providenciar outro lugar para viverem. Se o prazo vencer e nada for feito, o departamento jurídico definirá o destino da bicharada. “Os animais poderão ser disponibilizados para adoção ou até sacrificados”, disse Clésio.
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Além de correr risco de desabar, o imóvel condenado estava em situação deplorável. Os três cômodos estavam cheirando a fezes e urina dos animais e com moscas. Vizinhos reclamaram do cheiro ruim e que os gatos de Adriana invadiam suas casas. E essa não foi a primeira vez que os moradores do bairro se queixaram dos animais e que eles foram removidos. No dia 23 de julho de 2007, a Vigilância Ambiental esteve na residência de Adriana e levou 23 cachorros para o canil municipal.
A mudança de Adriana foi concluída por volta das 11 horas. Três horas depois, a casa foi demolida por máquinas da Prefeitura. Com o desmanche, a Secretaria de Obras e Serviços Municipais continuará o processo de drenagem na área.
CHÃO ABAIXO
A casa ocupada por Adriana Abrão não foi a única a ir chão abaixo no Jardim Dermínio. O loteamento da área foi autorizado em janeiro de 1979 para 1333 lotes, mas poucos anos depois, por volta de 1983, começou a apresentar problemas.
Localizado em área com muitas minas de água, solo arenoso e um córrego aos fundos, passou a sofrer processo de erosão. Os imóveis ficaram com paredes, teto e chão tomados por rachaduras e corriam risco de desabar. A maioria foi interditada pela Defesa Civil.
Em 2005, a Prefeitura decidiu buscar uma solução definitiva para o problema do Dermínio. Desde então, o município desapropriou e demoliu 24 casas naquela região. Os processos consumiram mais de R$ 1,1 milhão dos cofres públicos. “De acordo com laudo da Defesa Civil, as casas estavam todas em área de risco, condenadas e desocupadas. Os proprietários moravam em casas de aluguel pagas pela Prefeitura. Decidimos resolver as pendências do bairro”, disse Sebastião Ananias, secretário de Planejamento Econômico.
Com a destruição dos imóveis, vias do bairro, como a Presidente Delfim Moreira, ficaram desertas. Os terrenos que abrigavam casas rachadas estão todos vagos.
A próxima etapa será a drenagem do local para tentar estabilizar o solo. “As obras serão feitas para evitar que outras casas apresentem risco de cair e sejam condenadas”.
Ananias acha prematuro avaliar se a parte baixa do bairro, próxima à voçoroca, sobreviverá nos próximos anos. “Essa seria uma afirmação muito radical, que poderá ser feita só a longo prazo”.
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