Anteontem apresentei um quadro sobre as complexidades da economia internacional. Vamos conferir os desdobramentos para o Brasil.
Um dos pontos centrais do jogo é o redesenho do comércio mundial.
Nos últimos anos, o superávit comercial, para muitos países, era garantido pelos EUA. Agora, os EUA reduzirão sua fatia nas importações e ampliar nas exportações. Esse fato afetará a China, que procurará compensar avançando sobre outros mercados. A conta será bancada pelos países que têm sua moeda nacional mais apreciada - Brasil, Canadá e UE.
Ao permitir a apreciação do real, o Brasil se expõe a um segundo movimento da economia mundial: a reciclagem dos fluxos financeiros.
A crise do “subprime” gerou uma crise de crédito. Para combatê-la, o FED (Banco Central americano) reduziu os juros. Com menos juros nos EUA, há uma fuga de recursos para moedas que remunerem mais e que não signifiquem riscos no curto prazo.
O Brasil cumpre essas duas condições. No momento, suas contas externas estão no azul, os juros internos são elevados. Entram dólares que apreciam ainda mais o real. Esse movimento de apreciação do real aumenta os ganhos dos investidores externos, mas aprofunda a apreciação da moeda. Quando o real parar de se apreciar (uma hora tem que parar) esse ganho adicional desaparece.
Em um primeiro momento, a apreciação do real melhora o nível aquisitivo interno (já que importados e exportados ficam mais baratos). Há uma melhoria no consumo interno, ajudado pela expansão do crédito. Em um primeiro momento, permite o aumento do emprego e da renda.
Só que as importações estão crescendo a um ritmo muito maior do que o consumo. Significa que, a cada dia, vão se apropriando da parte antes ocupada pela produção interna. Além disso, parte cada vez maior dos produtos finais é feita com componentes importados.
O crescimento dos importados não é uma reta. É uma curva, que depende do aprendizado dos importadores, de ir identificando gradativamente fornecedores para os diversos produtos que vão ficando abaixo da linha de competitividade, com a apreciação do real.
Chega um momento qualquer no futuro, que há uma confluência dos seguintes fatores:
1. O ritmo das importações cresce tanto que passa não apenas a comer o aumento do consumo como a investir sobre a produção interna.
2. Com isso, esvazia o potencial de geração de emprego e renda proporcionada pela produção interna. E, com isso, esgota-se o potencial de aumento do crédito.
3. À medida que as contas externas vão entrando no vermelho, haverá necessidade de fluxos financeiros para fechar as contas. Só que a expectativa de desvalorização cambial provoca fuga de ativos externos.
4. Tudo isso supondo que o quadro externo permaneça o mesmo.
Portanto, está-se pedalando hoje em dia, em cima da corda, confiando que a explosão mundial por commodities (que garantem a pauta de exportação nacional) não só se mantenha forte, mas crescente.
FUNDO SOBERANO
O Tesouro aumentará suas intervenções no mercado câmbio e usará os dólares adquiridos para criar um fundo soberano no exterior que financiará investimentos de empresas brasileiras. Na prática, com a medida que está sendo preparada pela equipe do ministro Guido Mantega (Fazenda), o Tesouro assumirá, ao longo do tempo, o papel atualmente do Banco Central de controlar o excesso de moeda estrangeira na economia que tem feito o real se valorizar ante o dólar. “Vamos criar um fundo soberano não com as reservas existentes, mas com a aquisição de dólares que estão sobrando no mercado”, disse ontem Mantega. Apesar de o ministro insistir em que as reservas continuarão aumentando, a atuação do Tesouro permitirá ao governo diminuir o ritmo de crescimento desses recursos - uma espécie de poupança pública importante para mostrar que o País tem condições de honrar seus compromissos externos. Somente neste ano, as reservas cresceram US$ 74 bilhões com as compras de dólares feitas pelo BC e já somam US$ 176 bilhões. O problema é que manter um estoque tão elevado, quase todo aplicado em títulos do Tesouro norte-americano, tem um custo fiscal alto para o governo. Os recursos serão aplicados de forma mais agressiva em projetos com retorno mais elevado do que os 4,5% pagos pelos títulos do Tesouro dos EUA. Em compensação, também terão mais risco. A idéia em discussão na Fazenda é priorizar investimentos de empresas brasileiras. Os empresários nacionais que precisam de dinheiro para realizar novos projetos poderão emitir papéis no exterior, que serão comprados pelo fundo.
PREVIDÊNCIA
Pela primeira vez desde 1995, o déficit da Previdência Social acumulado no ano apresentou queda na comparação com igual período do ano anterior. Entre janeiro e outubro, as contas previdenciárias registraram saldo negativo (despesa maior do que a receita) de R$ 38,9 bilhões, o que significa redução de 0,5% em relação ao mesmo período de 2006. Em 1995, a Previdência enfrentou pela primeira vez na história déficit em suas contas.
De lá para cá, os saldos negativos crescem a cada ano. A arrecadação líquida da Previdência, de janeiro a outubro, cresceu 9,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Já as despesas previdenciárias aumentaram em menor proporção: 6,6%.
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