Indentidade negra


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A contribuição da arte negra foi essencial para a formação da cultura brasileira. A valorização dessa arte não apenas colabora na construção da identidade do negro, do próprio brasileiro, e da memória de nossos ancestrais, como também para o resgate da auto-estima desse grupo. A relação entre arte e identidade é muito importante, já que através dela pode-se determinar a valorização de certos grupos étnicos. O poeta Carlos Assumpção, 80 anos, ressalta que a literatura, que tem poucos representantes negros - mas entre eles estão Machado de Assis e Lima Barreto -, serve para despertar o negro para sua importância dentro da sociedade. “A literatura não é endereçada só ao negro, mas ao branco também que tem que ser conscientizado da nossa importância. Esse é o papel da arte negra, principalmente da literatura, de informar para diminuir o preconceito”. Os versos de “Protesto”, escrito em 1952 por Assumpção, surgiram com a perplexidade diante do preconceito que os negros sofriam. “Eu estava indignadocom o estigma da escravidão que carregamos até hoje. E parece que não mudou muito isso. Meus poemas são uma forma de representar a sociedade negra, minha poesia é simples, mas reflete aquilo que sempre vi, não inventei nada. O “Protesto” é o que se pode ver e sentir até hoje, infelizmente”. Foi com esse espírito que Assumpção criou o Coral Afro Francano, há sete anos, e que se apresenta hoje, às 20 horas, no Centro Cultural Cangoma, na Rua Presidente Kennedy, 1477. A entrada custa R$ 3. O Coral, regido por Hosana Janaína de Oliveira, apresenta o espetáculo Ukalê: minha casa, meu lar, em homenagem a Zumbi de Palmares. O grupo com 22 integrantes, negros e brancos, difere dos outros corais pela originalidade dos cantos e das vozes e principalmente dos atabaques, os tambores que são a alma da música afro. Com figurino baseado nas vestimentas da África do Sul, a apresentação é formada por músicas compostas por dialetos - que são explicadas pela regente - e por músicas afro-brasileiras. “Nós fazemos uma encenação que conta desde quando os negros chegaram ao Brasil até o fim da escravidão”, explica Hosana. A regente conta que o grupo pesquisa músicas de etnias diferenciadas e tenta traduzi-las para o português. “Tem muita coisa que não dá para traduzir ao pé da letra, mas não dá para cantar uma coisa que você não sabe o que quer dizer. Por isso sempre fazemos pesquisas. E todos do Coral amam de paixão a cultura afro. É um resgate que fazemos da cultura e história dos nossos ancestrais. É muito gratificante”. Quanto às dificuldades que os artistas negros enfrentam, Hosana disse que já houve uma melhora. “Ainda é preciso mudar o preconceito do próprio negro, foram muitos anos de repressão. Mas já demos um grande passo. Hoje a arte negra tem espaço na sociedade, não há quem não se apaixone pela dança e música dos negros. Mas em Franca ainda o espaço não é tão grande. Falta união dos movimentos”. O Centro Cultural Cangoma também é um espaço na cidade que contribui para a valorização da arte afro-brasileira. O Cangoma tem um grupo de estudos de ritmos brasileiros que pesquisa dança e música criadas por afro-descendentes no País. “A cultura negra é essencial para a formação da cultura brasileira em todos os sentidos. Sempre discutimos isso. A cultura brasileira não teria a riqueza que tem se não tivesse a influência da cultura negra”, ressalta Priscila De Col, uma das diretoras do Centro. No Dia da Consciência Negra, celebrado na terça-feira, 20, o grupo Cangoma apresentou no Terminal Urbano algumas das manifestações da cultura popular que se desenvolveram no Brasil por escravos africanos. “As mais conhecidas são o maracatu, originário de Recife, que é típico dos carnavais de lá, o jongo, do Vale do Paraíba, e o batuque de umbigada, que é paulista”, explicou Priscila. Os versos finais de “Protesto” exprimem o desejo do reconhecimento da cultura que originou a sociedade brasileira. “Eu quero o sol que é de todos/ Eu quero a vida que é de todos/ Ou alcanço tudo o que eu quero/ Ou gritarei a noite inteira/ Como gritam os vulcões/ Como gritam os vendavais/ Como grita o mar/ E nem a morte terá força/ Para me fazer calar”.

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