A Agabê, tradicional indústria calçadista francana, nacional e internacional, busca meios para se adaptar ao modernismo da valorização do real perante o dólar, à concorrência dos tigres asiáticos e à redução fortíssima dos números da exportação de seus produtos. Não é fácil.
Ao contrário do passado, quando o sapato brasileiro tinha qualidade e era bem pago, a batalha de agora privilegia produtos com alta qualidade a preços que não compensam. As vendas de calçados ao exterior significaram o principal item da pauta de manufaturados exportáveis da balança comercial brasileira nas décadas de 70 e 80. Empresas como Agabê, Samello, Pestalozzi, Terra, Emmanuel, Decolores, Pal-Flex, Palermo, Nelson Palermo, Sândalo produziam juntas a maior parte do volume exportado. Só a Agabê chegou a empregar 3 mil operários e a fabricar 15 mil pares por dia – o equivalente a 3,3 milhões de pares ao ano – grande parte para exportar.
As vitórias históricas dos gigantes francanos trouxeram despreocupação quanto à indispensável abertura de mercados novos, investimento em design e qualificação da mão-de-obra. O sinal vermelho surgiu quando indústrias locais começaram a perder compradores para a concorrência internacional, que oferecia qualidade e preço.
Resultado: a Agabê é hoje mero reflexo do que foi no passado. Tem 1,5 mil empregados - sendo apenas 600 em Franca - e produz, em suas duas unidades, menos de 8 mil pares por dia. Desse total, só 20% (cerca de 1,6 mil pares) vão para o exterior. Mais ainda: entre eles, 80% (algo como 1,3 mil pares) têm como destino a Europa.
A mudança de foco nas exportações, uma decisão de Miguel Bettarello, principal executivo da empresa, foi necessária. E chegamos, agora, ao motivo deste texto. Bettarello é um homem de decisões. Sua liderança, se não preservou a Agabê da crise, deu uma sobrevida que a maioria de suas companheiras do passado não alcançou.
Das empresas francanas permaneceram também Sândalo e Samello. A crise da Samello explodiu nos últimos dois anos. Hoje, ainda em recuperação judicial, luta para voltar a produzir. A Sândalo fechou. Repartiu funcionários com facções para não perder a marca.
Uma espécie de “última dos moicanos”, a Agabê vinha emitindo sinais de que algo não andava bem. Demitiu a maior parte de seus funcionários no decorrer de anos, com drástica redução de produção. Seus executivos falavam em instalar a empresa em locais onde a mão-de-obra fosse mais barata. Em imobiliária da cidade era possível encontrar parte de suas instalações à locação.
No último fim de semana a certeza: na surdina, a empresa tinha decidido descartar quase 600 de seus funcionários remanescentes e abrir outra, menor, para continuar fabricando calçados de qualidade com parte do pessoal e salários menores. A informação, publicada pelo Comércio da Franca, e um incêndio em sua unidade de Aracati (CE) onde produzia calçados mais populares, resultaram na preservação dos empregos em Franca e na mudança da estratégia.
Mais uma vez é hora de mudar. Quem conhece Miguel Bettarello sabe que tomará decisões objetivas e racionais para manter o que for possível da empresa criada por seu pai. Que assim seja. Embora ferida, a Agabê encontrará, se fizer os ajustes necessários, fôlego novo.
Volta à lembrança o que Bettarello fez quando presidente da Francal, ao início da década de 80. A feira ainda acontecia em Franca. De principal evento do setor coureiro-calçadista nacional, a feira caminhava para o desaparecimento em razão da inexistência de estrutura hoteleira adequada, transporte aéreo e viário, distanciamento da Via Anhangüera (então a principal via de transporte do Estado). Por anos perdeu expositores, lojistas e visitação de importadores. Miguel reuniu seus companheiros e avisou: vou levar a feira para São Paulo. Avisou e fez.
Foi execrado publicamente por autoridades, pelo povo (maioria esmagadora ligada, direta ou indiretamente, à produção de calçados), em razão da ousadia. Rogaram-lhe pragas. Condenaram-no ao inferno por haver contestado a bairrista denominação de “mais importante evento da cidade, que não haveria de sobreviver em outro lugar”.
Sobreviveu. Recuperada, a feira se tornou a atração principal da empresa de eventos também chamada Francal e que hoje realiza feiras setoriais pelo País e exterior.
A Agabê é a nova e dolorosa empreitada. Se Miguel e seus irmãos não estiverem cansados e desistindo de lutar, pode acontecer de novo. (Luiz Neto e Eduardo Schiavoni)
MAIS EUROPA
A exportação para a Europa tem uma vantagem essencial: o sapato chinês é sobretaxado em 35% nas alfândegas do Velho Mundo. Com isso, o produto brasileiro ganha competitividade. Além disso, o consumidor europeu preocupa-se mais com a qualidade do produto, quesito em que o Brasil coloca os asiáticos “no chinelo”.
ITÁLIA
De olhos cada vez mais voltados à Europa, a Agabê, através da marca Bettarello, confirmou participação na Expo Riva Schuh, feira que acontecerá de 12 a 15 de janeiro, na cidade de Garda, Itália, país que importou mais de US$ 564 milhões em sapatos do Brasil em 2007.
MERCOSUL
Outra tendência apontada por empresários francanos é o fortalecimento das exportações do setor coureiro-calçadista da cidade para o Mercosul. A Venezuela - prestes a entrar no bloco - já é a terceira maior compradora individual da produção francana, com negócios na casa de R$ 6,5 milhões. No total. É pouca ainda, mas convém manter atenção focada nos vizinhos.
AMAZONAS
O processo de renovação administrativa do Grupo Amazonas continua. Saulo Pucci, um dos diretores da empresa, faz mistério sobre o nome de um novo executivo, mas diz que, nas próximas semanas, o anúncio oficial deve ser feito. A conferir.
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