Imaginar um mundo menos individualista, mais respeitoso e harmônico; seria, sem dúvida nenhuma, um bom lugar para se viver. Dias atrás, num fim de tarde, vivenciei algo contagiante no interior de um estabelecimento de panificação, enquanto aguardava ser atendido; notei a entrada de um cãozinho serelepe (certamente este, atraído pelo delicioso aroma das quitandas); em seguida, pude ouvir uma voz educadamente sussurrando algo ao canino-invasor que, fingindo não ser com ele o problema, disputava de maneira afoita e curiosa o espaço entre os clientes.
Foi quando pude ver, aquela figura agradável e simpática, conhecida e tão querida dos freqüentadores daquele lugar; alinhado em seu uniforme e convicto de sua missão, tentava aproximar e convencer o pequeno quadrúpede a se retirar do recinto. Atento àquela cena, assisti uma verdadeira aula de como dispensar a um cachorro tratamento de tamanha cordialidade e respeito. O exemplo da conduta a que me refiro, foi dado por um simples cidadão, funcionário de padaria que, não o trataremos aqui somente pelo prenome ‘John’, mas, de ‘o grande John’, cidadão ilibado que exerce sua importante função demonstrando que, mesmo nas atividades laborais mais humildes, é possível transitar pela vida com galhardia, honradez, alegria, respeito e dignidade - elementos conquistadores que enternecem profundamente, tornando John... em um ‘grande’ homem, detentor do nobre potencial disseminador de um segredo milenar (esquecido por muitos) chamado ‘afetividade humana’.
Vejam só, a história de John foi superficialmente abordada para que servisse de base norteadora ao se estabelecer um referencial de comportamento válido numa sociedade.
Entretanto, contrariando o bom exemplo de ser humano apresentado anteriormente; é lastimável quando vemos gente comum, que teve no passado acolhimento digno por parte de um povo, oportunidade de inserção social estratégica, conhecimentos educacionais privilegiados; tendo uma dívida de gratidão e respeito impagável àqueles que lhe deram guarida. E que, ao chegar numa posição de destaque, movido sabe-se lá pelo quê, abre sua boca ‘de ferro’ grande proliferando chalaças delirantes e ofensivas contra um povo generoso e simples de coração.
Isso tudo nos ensina, que anos e anos de vida, talvez não sejam suficientes, empiricamente, em forjar bons comportamentos, lapidar arestas sinuosas em indivíduos que ainda teimam, ser desrespeitosos e atrevidos, desafiando e sondando os limites por caminhos nebulosos.
Creio que a vida ainda reserva, a esses simples ‘mortais’, passageiros deste mundo, de perfis arrogantes; a emergente necessidade para que aprendam com o porteiro da padaria - o ‘grande John’ -, a arte de tratar com respeito e dignidade a um simples ‘cão’; para que então, na aspiração em ser legitimamente ‘grande’, dirija o verbo a nobres cidadãos.
RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio.
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