A pediatra Márcia Barcelos Beani cuida de Marcela de Jesus Ferreira desde o nascimento. Atualmente, ela visita a criança sem cérebro duas vezes ao mês. A médica confirma a anencefalia propriamente dita do bebê, constatada por ressonâncias magnéticas, e afirma que a criança só não foi examinada por especialistas por escolha da mãe, que prefere manter a qualidade de vida de Marcela.
Comércio - Como a senhora vê o fato da Marcela estar viva até hoje?
Márcia Barcelos - A Marcela é uma grande surpresa. Na última semana, foi feita mais uma ressonância magnética que confirmou o quadro de anencefalia, porém ela tem reagido e sobrevivido um tempo que nós não esperávamos.
Comércio - A Marcela tem anencefalia propriamente dita ou apresenta algum quadro de anencefalia parcial?
Márcia - A Marcela não tem o anencefálo nem a calota craniana. Pela ausência no anencéfalo e da calota, ela tem diagnóstico de anencefalia. Desde o primeiro exame de ressonância, aos quatro meses de vida, já sabíamos que ela tinha o tronco cerebral. É exatamente por esse tronco cerebral que ela mantém as funções vitais como respiração e freqüência cardíaca.
Comércio - Neste último exame que ela fez (no dia 13 de novembro) foi constatada alguma mudança? O tronco dela se desenvolveu?
Márcia - Nesse último exame, ela estava bem mais tranqüila e até dormiu. Isso foi decisivo para que o radiologista (João Soares Leite Filho) tivesse detalhes das imagens que foram feitas. O tronco cerebral se desenvolveu normalmente. Ela tem toda a parte de medula e coluna perfeita. Vimos detalhes do aparelho auditivo, que é normal. Com isso dá para entender por que a Marcela reconhece a voz da mãe. Ela escuta, apesar de não ter entendimento do que está sendo conversado em função da ausência do cérebro.
Comércio - Por que a Marcela não foi examinada por especialistas em um ano de vida? (Márcia não é especializada em neurologia infantil). A mãe não permite?
Márcia - Isso não é verdade. Dentro do diagnóstico de anencefalia não existe tratamento curativo para esse problema, por isso a mãe se restringe a manter a qualidade de vida da criança. Em nenhum momento foi impedido que qualquer colega pudesse dar uma segunda opinião.
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