O que parecia pouco provável aconteceu. Marcela de Jesus Ferreira, bebê que nasceu sem cérebro em Patrocínio Paulista, completa hoje 1 ano de vida. Ela continua desafiando a medicina por conseguir sobreviver por tanto tempo. O mistério persiste. As três ressonâncias magnéticas (uma na Santa Casa de Franca e duas no Unimed São Joaquim) pelas quais a criança foi submetida, durante seus 12 meses de vida, diagnosticaram que Marcela tem mesmo anencefalia propriamente dita e não parcial - contrariando o que chegou a ser publicado por alguns veículos de comunicação recentemente. A criança não foi avaliada por nenhum médico especialista no assunto (neurologista), já que a mãe, Cacilda Galante Ferreira, quer preservar a filha e prefere que ela seja examinada apenas pela pediatra Márcia Barcelos Beani. Para Cacilda, o que realmente importa é o fato do bebê estar vivo há um ano, quando as previsões iniciais eram de que ele sobreviveria apenas algumas horas.
Marcela está bem de saúde e engordando a cada dia. Em junho, foi a última vez que foi levada à Santa Casa de Patrocínio Paulista por sentir cólicas. Desde então, vai ao hospital uma vez ao mês para ser pesada. Marcela está com 12 quilos e 66 centímetros - média de 2 quilos a mais se comparada a uma criança normal.
Marcela passa boa parte do dia deitada e só senta com a ajuda da mãe. Exames também revelam que o bebê não enxerga e tem apenas reflexos - pequenos movimentos quando tocada, como apertar o dedo da mão da mãe, por exemplo. A polêmica agora é saber se ela realmente escuta. “É difícil dizer até que ponto ela escuta. A impressão que dá é que ela reconhece a voz da mãe. Talvez sejam apenas reflexos”, disse João Soares Leite Filho, médico responsável pelas duas ressonâncias magnéticas de Marcela realizadas no Hospital Unimed São Joaquim. Já a médica Márcia Barcelos Beani, que a acompanha desde o nascimento, afirma que o bebê tem o aparelho auditivo normal.
Soares disse que o terceiro exame foi feito com a intenção de saber se o diagnóstico se mantinha e se tinha aparecido alguma lesão. Não houve surpresas. Marcela realmente é um bebê anencéfalo. “Ela tem apenas o tronco cerebral, que continua do mesmo jeito que quando analisado da primeira vez”, disse.
AMOR DE MÃE
Alheia a toda essa discussão, Cacilda vive 24 horas por dia em função da filha. Bem-humorada, brinca que está com dores nas costas de tão pesado que o bebê está. “Estou pensando em comprar um carrinho para carregar ela. Minha coluna sabe como ela está pesada”, brinca Cacilda.
Para a mãe, a filha se desenvolve a cada dia. “Ela está mais firme e já pronuncia algumas palavras como ‘gu’, ‘dá’ e ‘má’”, disse. Para especialistas, como o geneticista Thomas Gollop, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, Marcela não conseguirá falar nem andar. Durante o tempo em que a reportagem do Comércio permaneceu na residência de Cacilda (cerca de uma hora), o bebê ficou quietinho o tempo todo.
Cacilda não faz previsões. Do futuro, não espera nada. “É Deus que vai determinar quanto tempo a Marcela vai ficar comigo. Quando Ele a levar, eu sei que vou sofrer muito. Mas o que eu podia fazer por ela eu fiz. O presente maior eu já dei. Eu a deixei nascer”.
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