Conheça a rotina de um delegado


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Os delegados civis estão em plena campanha de reconhecimento de suas atividades. Entre as iniciativas estão uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) em tramitação no Congresso, que reconhece a profissão como uma carreira jurídica e equipara os salários dos delegados aos dos integrantes do Ministério Público. Com isso, o salário dos delegados de São Paulo passaria dos atuais R$ 3 mil para algo próximo a R$ 10 mil. Além disso, os policiais solicitam mudanças na legislação que dêem, no ponto de vista da corporação, mais liberdade para que os delegados possam exercer suas funções. Uma delas é o direito de expedir mandado de busca. Utilizado na localização de provas ou na prisão de criminosos, ele só é liberado por um juiz. Os delegados consideram que a liberdade de poder efetuar um mandado de busca, que seria comunicada em 24 horas ao juiz, sem a autorização judicial daria maior agilidade às operações policiais. Outra reivindicação da categoria é o direito de decretar prisão sem ser em casos de flagrante. O Comércio da Franca considera importante que se discutam as solicitações dos delegados. Para fornecer elementos que possam ampliar o debate, o jornal tem publicado matérias que mostram como pensam e como agem os delegados. Na reportagem de hoje o leitor poderá acompanhar o relato do repórter Pablo Santos, que acompanhou o delegado da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes), Pedro Dallaqua, em um dia de trabalho. Confira. DIA DURO “Às 9 horas de quinta-feira, 8 de novembro, chego à delegacia da Dise (Delegacia de investigações Sobre Entorpecentes) e procuro por Pedro Dallaqua, delegado local. O tempo fechado e a ameaça de chuva dão a impressão de que o dia vai ser calmo e tranqüilo. A intenção era acompanhar seu trabalho pela manhã e ir a outra delegacia à tarde. Doce ilusão a minha. Dallaqua me recebe, explica que tem um mandado de busca para cumprir, mas que, antes, tem que resolver algumas questões internas. Oferece um café e vai atender dois eletricistas que o esperam. Junto a eles, discute qual a melhor forma de se passar a fiação que chegará ao ar condicionado da sala de investigação. O aparelho é de fundamental importância para a manutenção de provas, que em muitos casos têm que ficar em uma temperatura certa para não estragar. Após algumas ligações para resolver as questões burocráticas, combina o dia para o serviço. Seguimos então para o mandado de busca. Dallaqua me explica que o caso, apesar de não ser relacionado a entorpecentes, caiu em sua delegacia. “Ele (o suspeito) é um velho conhecido meu. Já fiz algumas investigações sobre ele antes”. No caso, um estelionato, o suspeito e alguns “comparsas” fazem CPF e CNPJ com nomes falsos, compram mercadorias a prazo e depois repassam as mercadorias a outros comerciantes, que pagam à vista. Duas viaturas saem da Dise. Uma com o delegado, eu e dois investigadores, rumo a uma loja de eletrodomésticos que serve de fachada para o negócio, na Vila Santa Cruz, e a outra, com três outros investigadores, vai para a residência do suspeito, que chamaremos de “Aparecido”, algumas ruas perto dali. A intenção é verificar a existência de aparelhos televisores. Ao chegarmos ao local, a constatação: era tarde demais. Tudo trancado e ninguém no local. Dallaqua liga então para o chaveiro e o chama para abrir o portão e averiguar o que tem no prédio. Enquanto isso, entra em contato com a outra equipe, que também não encontrou o suspeito e se junta ao delegado. O chaveiro chega, abre o portão e os investigadores e delegado observam minuciosamente o local. Nada é encontrado, apenas algumas correspondências. Durante este tempo, um cobrador chega ao local para executar um cobrança de supermercado, mais uma das vítimas do estelionatário. Investigadores que são, os membros da Dise descobrem que o suspeito saíra de lá com um caminhão cheio de produtos. O próximo passo é chegar ao frentista que os transportou. Ao encontrá-lo, descobrem que as mercadorias foram para Ibiraci, para onde partimos. AÇÃO Ao chegar em Ibiraci, passamos por uma casa onde o suspeito poderia ter colocado parte do material comprado ilegalmente. Qual não é a surpresa ao ver o suspeito falando ao telefone, tranquilamente, encostado em um carro. A tranqüilidade dele, no entanto, se transforma em uma agilidade ímpar, a ponto de conseguir fugir em questão de segundos, tempo das viaturas fazerem uma manobra e parar. Na casa, apenas uma moça, mulher de seu empregado, seu filho recém-nascido e muitos produtos, como móveis, materiais de construção, máquina de presponto e até mesmo produtos de mercearia. A jovem diz que não sabe de nada e que o patrão de seu marido havia levado aqueles produtos para sua casa. Foram quatro caminhões de mercadoria. BUSCA É feita uma minuciosa busca na casa, inclusive embaixo do assoalho, mas nada é encontrado. Ali não seria, no entanto, o único local onde estariam os produtos do estelionatário. Ele já havia vendido alguns deles para um comerciante da cidade. Fomos então, a uma das lojas do comerciante, que não estava no local. A outra equipe fica na casa. “Aparecido” havia vendido bicicletas, fogões, tanquinhos de lavar roupa e colchões. O proprietário chega e Dallaqua explica que ele foi vítima do golpe e que os produtos seriam apreendidos. Seu prejuízo foi de R$ 3 mil. Ele fez uma compra de R$ 12 mil, mas apenas o primeiro cheque havia sido descontado pelo estelionatário. Dallaqua observa os produtos a fim de descobrir de quem Aparecido os teria comprado. Descobre e liga para as vítimas informando que o material foi apreendido. Enquanto aguarda o caminhão que levará os produtos de volta a Franca, o delegado interroga o proprietário da loja, que não oferece resistência e contribui para as investigações. O advogado do suspeito chega e conversa com o delegado. Seu cliente entrou em contato com ele e a partir de então, ele acompanha toda a operação da polícia. Já são 13h30 e saímos para almoçar, ou melhor, engolir a comida. De volta à loja, ajudamos a colocar os produtos no caminhão e voltamos para a casa. Os investigadores estão acabando de almoçar e o mesmo trabalho de identificação das vítimas das quais Aparecido comprou os produtos continua. Após descobertos os nomes, é a vez de carregar os produtos que ali estão. Chega o primeiro caminhão e os produtos são colocados nele. A movimentação chama a atenção dos que passam na rua e logo logo o espaço está todo tomado de curiosos que observam e fazem seus comentários sobre a operação. O primeiro caminhão é carregado e ainda falta o trabalho mais pesado: levar mais de 300 metros de pisos, duas pias, sacos de cimento, entre outros produtos. Dois caminhões da empresa que vendeu os produtos chegam para levá-los de volta à loja. Concluídos os trabalhos, voltamos a Franca e, na delegacia, a jovem que estava na casa e o motorista prestam depoimentos. Neste momento, os investigadores ligam para suas mulheres avisando que chegariam tarde. Já havia anoitecido, mas o trabalho ainda não havia acabado. Pegamos de novo a estrada, desta vez para Patrocínio Paulista, onde “Aparecido” também teria aplicado seus golpes. O objetivo na cidade era ver se funcionários de um supermercado onde havia feito compras o identificariam e verificar a existência de outro esconderijo, mais uma vez uma loja de fachada. Chegamos ao supermercado e os funcionários não conseguem responder se ele de fato havia passado por ali. No entanto, uma das consumidoras que passava perto do delegado olha a foto e o identifica: ele havia aplicado um golpe em seu pai. Nos dirigimos à loja onde ele estaria guardando os produtos, mas ele já havia entregado o imóvel, que estava vazio, de acordo com informações da proprietária. Fomos então à casa da vítima recém-descoberta, que explica detalhes da transação feita e revela novos dados para a polícia, que descobre novas contas falsas. ACABOU? Ufa, já são 21 horas, finalmente voltamos para Franca e o dia está encerrado. Na verdade, apenas o dia, porque o caso continua e as investigações seguem na sexta-feira. No sábado, chego para fazer meu plantão e minha pauta é: Dallaqua encontrou outra casa cheia de produtos de “Aparecido”, com muito mais coisas do que as encontradas na quinta-feira. Respiro e vou apurar os fatos. Lá estão o delegado, os investigadores, o advogado do acusado e muita, mas muita mercadoria. Colho as informações, retorno para a redação para redigir a matéria. Para Dallaqua, mais uma vez, as investigações estão apenas começando.

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