N uma festa de confraternização de pais e alunos vi a seguinte cena: uma mãe de meia-idade procurava, desesperada, o filho que sumiu no meio das muitas pessoas que havia no local espaçoso. Daí a pouco o garotinho surgiu sorridente, com uns amiguinhos. Não teve tempo nem de dizer “oi mãe”! Furiosa, ela desferiu um tapa para acertar-lhe o braço, mas, ao encolher-se instintivamente, ele acabou atingido no rosto. Desconcertado e meio choroso, disse: “ah, mãe, não bate na minha cabeça não”. Ela o agarrou firme por um braço e saiu puxando-o e dando-lhe bronca. “Que raiva! Por que você some? Eu estava louca te procurando!”.
Presumo que ela ficou aliviada quando o encontrou. Creio mesmo que ficou feliz, pois mães amam os filhos, e sua angústia se foi quando ele chegou. Com a sensação íntima que ela teve ao vê-lo, seria de se esperar que o abraçasse ternamente e dissesse: “Oi filho, que bom que você apareceu! Eu já estava preocupada! Tá tudo bem?”. Se banido o desassossego da alma, por que então o sentimento demonstrado foi o oposto, raiva ao invés de ternura?
“O mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina!
Jesus foi homem! (...) Para não se ver eventualmente envolvido nas armadilhas dessa lei absurda, o homem terá de se manter tolo, mole, no sentido de se ver na contingência de ter de ceder facilmente às pressões. (...) A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo, como inclusive já está: desfacelada, os filhos sem regras, porque sem pais; o homem subjugado”. Quem escreveu isso foi o juiz da 1.ª Vara Criminal de Sete Lagoas (MG), referindo-se à nova lei da violência contra a mulher, ao negar medidas protetivas a vítimas de maridos agressores. Ou seja, segundo o “sensível” magistrado, mulher tem de apanhar mesmo!
Disse Mark Twain: “Eu não pergunto de que raça é um homem; basta que seja um ser humano; ninguém pode ser nada pior”. Não sou tão descrente assim na raça humana, mas às vezes me pergunto: “onde foi parar a nossa sensibilidade?” Será que o relacionamento cada vez maior com máquinas que pensam por nós e controles remotos, nos tornou insensíveis? É incrível a facilidade que a gente tem de se irar e, pior, descarregar em quem nada tem com isso. Por outro lado, é imensa a dificuldade em elogiar, demonstrar afeto.
Somos “casca de ferida”, cheios de afetação, sensíveis a coisas banais que deveríamos ignorar, e, de outra banda, indiferentes a coisas que deveriam nos sensibilizar. Temos sensibilidade às avessas. No fundo a gente tem amor, ternura, mas outros sentimentos afloram antes e tapam a passagem. A alma se torna inatingível, intocável, rodeada por uma couraça. O que está fora não entra; o que está dentro não sai. Nada passa.
É comum a gente errar, magoar alguém e até no fundo reconhecer o erro; o problema é que tudo trava na hora de chegar de cara limpa e pedir desculpa. Um mal-entendido tem o poder de afastar pessoas que se gostam. Uma simples conversa pode consertar tudo, mas sabe aquela coisa de não dar o braço a torcer? O resultado é que se perdem anos nesse clima de malquerer. Há uma forma desvirtuada de amar. Ser educado parece vulgar, a cordialidade perdeu o lugar, é cafona ter respeito, bacana é desafiar. “Ter de ouvir seus problemas me causa enfado; quer me ‘alugar’, não vê que estou atarefado?” Ficou careta ser sensível, mostrar afeto, carinho.
Até acreditar em Deus ficou antiquado. Preocupar-se com o bem das novas gerações? Que nada! Vamos lavar calçada com água tratada, resolver tudo na base da pancada, reforçar o leite de cada dia com soda cáustica e água oxigenada...
Onde foi parar a nossa sensibilidade?
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro “Pensando na Vida” - E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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