Um exemplo de força e superação


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Luís Quirino de Sousa perdeu a visão quando ainda era adolescente. Continuou seus estudos, formou-se em direito, pedagogia e história, criou dois filhos e hoje dá aulas de infomática para um grupo de 25 cegos
Luís Quirino de Sousa perdeu a visão quando ainda era adolescente. Continuou seus estudos, formou-se em direito, pedagogia e história, criou dois filhos e hoje dá aulas de infomática para um grupo de 25 cegos
1968. O que seria um ano de recordações ruins para o professor Luís Quirino de Sousa é, na verdade, uma referência de coragem, determinação e superação de limites. Na época, com apenas 13 anos, Luís gostava de assistir às partidas de futebol realizadas no Colégio Champagnat, mesmo local onde cursava a 4ª série - hoje equivalente à 8ª do ensino fundamental. Em um dos jogos, seus irmãos mais velhos participaram, foram campeões. A vitória revoltou torcedores do time adversário. “Quando íamos embora, senti uma pedra bater na lateral do meu olho”, lembra. O traumatismo causado pelo golpe lhe tirou a visão do olho direito. A família do professor, apesar de humilde e sem recursos - seu pai era leiteiro - buscou todos os tratamentos possíveis para recuperar a visão do garoto. Não adiantou. Aos 14 anos, ele perdeu a outra visão em decorrência de um descolamento de retina. Luís pára de estudar e, por oito meses, busca tratamento. A situação, porém, é irreversível. “Quando o médico não me deu mais esperanças, retomei minhas atividades”. O “retomar as atividades” de Luís foi além de uma simples adaptação à sua deficiência. Sem se abater e com apoio dos pais, irmãos e amigos, no ano de 1971 voltou a estudar. Conseguiu terminar o ensino médio, aprendeu o braile e fez aulas de música. Mas não parou por aí. Luís fez ainda curso de inglês completo nas melhores escolas de língua estrangeira da cidade e, em dez anos - de 1977 a 1987 - se tornou bacharel em Direito e se licenciou em História e Pedagogia. A turma de faculdade de Luís não era especial. Para memorizar tudo que era dito em sala de aula, ele gravava as matérias, os conteúdos dos livros. “Amigos, família, esposa, todos me ajudavam”. Nas provas, contava com ajuda de funcionários cedidos pelas faculdades. “Eu ditava e eles escreviam”. Das graduações que concluiu, ele utilizou a Pedagogia. Há 24 anos é professor da Sociedade de Instrução para Cegos de Franca. “Antes, ocupava um cargo administrativo na Prefeitura de Franca. Fui cedido para dar aula de braile na entidade”. O braile, porém, deixou de ser a única escrita utilizada por Luís. Há 12 anos ele conheceu o programa de computador Dos Vox, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e que permite aos cegos ouvir o som das letras do teclado. Aprendeu sozinho a lidar com a informática, conheceu programas mais modernos, deixou de ensinar o braile e se tornou professor de informática. “Quando descobri a informática, percebi que ela melhoraria a vida do deficiente visual, principalmente com a inclusão na sociedade, a possibilidade de estudos e leitura”. Atualmente, Luís tem 25 alunos de todas as idades, mas já ensinou cerca de cem deficientes a utilizarem o computador e acredita que, pelo menos, 40 dos seus alunos tenham equipamento de informática em casa. “Utilizamos para conferência, troca de experiência, estudar, entre outros fins”. Os alunos de Luís se comunicam pelo MSN, têm e-mails, “lêem” jornais e textos na internet, participam de jogos de corrida e têm até sites próprios. Pelo programa de computador desenvolvido especialmente para deficientes, é possível utilizar todos esses aplicativos de forma rápida e dinâmica. Ao entrar em um site, por exemplo, todo o conteúdo da página é ditado para o usuário e o próprio computador instrui o deficiente sobre as opções de ferramentas. Guilherme Rodrigues de Azevedo, 17, é um dos alunos de Luís. Ele nasceu com deficiência visual e, aos 9 anos, começou nas aulas de informática. Guilherme cursa o 2º ano do ensino médio, construiu uma página na internet (onnekalel.rg.com.br) onde publica contos, poesias e textos sobre a deficiência visual. Entrar na era da internet foi possível graças à ajuda de Luís. “O Luís é meu exemplo de vida. Aprendi muito com ele. Admiro a determinação que ele tem”. NÃO É O FIM Para Luís, a vida não acaba após uma perda física ou sensorial. Ele garante que sempre há um recomeço, em qualquer situação e que a pessoa deve se adaptar e ser feliz. “Não é fácil, eu sei bem disso, mas acho que para conquistarmos aquilo que queremos tem de haver determinação e força de vontade. É possível, sim, superar a limitação. Com esforço, a pessoa pode alcançar muitos objetivos”. Além da vida profissional, Luís também formou família. Há 28 anos se casou, tem uma filha de 27 anos, que é funcionária pública, um filho de 25 anos, que é formado em Ciências Contábeis, e uma neta com três anos de idade. Para formar os filhos, contou com o salário de funcionário público que recebe até hoje e com a ajuda da mulher que, segundo Luís, sempre trabalhou. Há 13 anos os dois montaram uma lanchonete especializada em fogazza. No início, Luís chegou a fazer serviço de caixa na loja e contava com a confiança dos clientes. “Eu separava cada valor de nota em um bolso e, assim, conseguia fazer o troco”, disse. Por conta do trabalho, a vida social de Luís ficou um pouco restrita. “Participamos de festas em casa de parentes próximos, mas a lanchonete não nos dá muito tempo, já que funciona de terça-feira a domingo. Como não trabalho mais lá fico no computador”. Luís Quirino também tem uma página na internet onde expõe fotos da família, conta sua história de vida e onde colocou músicas de uma banda em que foi vocalista nos anos 70, a Sem-Sason. VEJA MAIS Não perca também trechos exclusivos e detalhes da entrevista no Jornal de Domingo, às 8 horas, e no Jornal da Manhã, às 6 horas desta segunda, ambos na Difusora AM 1030 kHz.

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