Como a maioria do povo brasileiro, tímido no lutar pelas causas sociais, o povo negro guarda um forte traço da chamada inconsciência graças ao atavismo de submissão pela escravidão.
As iniciativas com o intuito de mostrar a cara do indivíduo negro numa sociedade que é veladamente racista, têm sofrido restrições que feriado nenhum poderá sanar.
Estranho a discussão partir da tribuna sindicalista, de vez que não se trata de relações do trabalho, e sim causa que constitui dor social para consciências sem raça e sem cor. Não vieram à tona os inúmeros motivos que devem marcar a efetivação dessa data no calendário municipal, a exemplo da falsa democracia racial.
Sobre-representado na pobreza e sub-representado na política, lutando contra a falsa democracia racial, não merece uma pobre redução a questões legais, do ‘ser ou não ser’ feriado. Lutas sociais anseiam pelos Zumbis dos muitos Palmares, cujos endereços poucos conhecem. Quilombos sociais edificados pelas injustiças anseiam por vidas, a seu favor, sem dia nem hora marcados.
Feriados civis e outras datas serão então desnecessários, no ‘tododia’ das mulheres, dos negros, crianças e adolescentes, dos idosos, do meio ambiente, das pessoas com deficiência, etc.
A Lei 1390/51, conhecida como Lei Afonso Arinos, considerava a prática do racismo contravenção penal, ou seja, ato delituoso inferior ao crime. Foi revogada pela Constituição Federal de 1988. A partir de então o preconceito e o racismo constituem crime inafiançável. Em 1995, por ocasião da implantação do Programa Nacional de Direitos Humanos no governo Fernando
Henrique Cardoso, foi oficialmente reconhecida pelo Estado, a existência do racismo no Brasil, elegendo o 21 de março como dia internacional pela eliminação da discriminação racial. No entanto, a prática de ações que contemplam o racismo continuam sendo uma das muitas questões que costumam se encerrar na justiça branca arquivados pelas mãos brancas de funcionários na sua grande maioria, branca.
As camélias brancas constituíram símbolo abolicionista no tempo do Império, sendo cultivadas no quilombo do Leblon. Abrigava os fujões e libertários. O chefe desse quilombo, José Seixas Magalhães, costumava presentear com essas flores a ‘Princesa Redentora’. Aos 13 de maio de 1888, sobre a mesa imperial, um bouquet e a pena de ouro. Mensagem final.
Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon assinou a Lei Áurea, provavelmente com uma camélia no peito. Liberal de direito, esquerdista de fato, a regente foi a primeira senadora do Brasil. Sob o signo de Leão, ela era defensora do sufrágio feminino e da reforma agrária brasileira (desde Isabel que se faz reforma agrária no Brasil).
Coração português chegado à filantropia, via sérias ameaças no pós-abolicionismo. Delineou para proteção dos livres, um projeto de amparo social com recursos do Banco Mauá, que não chegaram a ser aplicados... Seu exílio chegou primeiro.
Aos libertos, o desterro, ‘liberdade sem asas e da fome sem pão’, ‘recall’ dos novos velhos tempos, com a complacência nossa de cada dia. Datas alusivas quando não cumprem sua função, são como a camélia que caiu do galho deu dois suspiros e depois morreu. Feriado ou não, muito trabalho em recolhê-las desse chão e fazer das camélias caídas, um lindo bouquet. A exemplo das rosas que não falam, as camélias exalam o perfume da paz!
DÁ INVEJA DE SER NEGRO!
Zumbi, nascido em um dos mocambos de Palmares, dá sentido a raça negra graças ao significado. De acordo com Freitas (2004), significa deus das armas, negro de singular valor, grande ânimo, constância admirável e inimigo capital de todas as dominações.
Poderia ter uma vida ‘normalzinha’ a exemplo de muitos, no entanto preferiu voltar, fugindo do Padre Antônio Melo, seu protetor aos 16 anos. Foi de encontro ao seu destino na ‘Jerusalém’ dos Palmares, o quilombo. Como Cristo, em sua terra natal, lá teve seu calvário. Ganga Zumba, o Judas, o entrega à degola portuguesa. A morte deu-lhe vida para sempre assim como força e perpetuidade aos seus ideais. ‘Ei, Ei, Zumbi! Você não morreu. Você está em mim’ (cantam hoje os neo-abolicionistas no Brasil).
PAUSA PARA O CAFÉ
Princesa Aqualtune, mãe de Zumbi, diretamente do quilombo para o café. Linda e majestática negra, flor camélia, quilombola libertária, conta que esses grupamentos resistiam a toda lógica escravocrata. Sua organização política facilitava a participação de todos nas assembléias e conselhos. Convidou para o 20 de novembro, à batalha das flores, todas as camélias para as ruas, as praças. Avisa lá a nossa Bá, cheia das graças e dos cantos de sua autoria que parecem lamento vindo das senzalas. Bá, linda camélia da Franca do Imperador, com feriado ou sem feriado! Café com gosto de senzala, algumas gotas de lamento, mas forte aroma de liberdade no ar!
ANGELITOS NEGROS!
Pintor... siempre que pintas iglesias pintas angelitos bellos, pero nunca te acorda te pintar um angel negro’, lamenta Magaldi, curiosidade de uma geração. Porque não se pintam anjos negros.
Sub-representados nas artes, foi preciso um mulato, Mestre Ataíde (século XVII), autor da pintura de Nossa Senhora com anjos de traços mestiços. Se fosse negro, com certeza seriam negros esses anjos. Nenhum preconceito, tudo uma questão cultural e de representação. Considerando que o barroco foi uma época que oscilava entre velhos e novos valores, os mestiços se destacaram como gente da terra. Onde os pintores negros? Será que pintam anjos negros? Aiku (imortalidade) a Zumbi!
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.