As exportações de calçados de Franca estão minguando, tornaram-se inviáveis na maioria pelo valor do dólar tão baixo. Comparando-se os primeiros nove meses deste ano com os do anterior, houve uma perda de 597 mil pares e de 6,330 milhões de dólares.
Calçadistas que atuam no exterior explicam seu dilema: o câmbio atual obriga-os a elevar preços, para terem um mínimo de remuneração. Isso ainda é possível nas vendas dos pequenos volumes de sapatos mais caros. Mas no grande mercado perdem clientes, especialmente os norte-americanos, para fabricantes da Índia, China, Vietnã.
A saída vislumbrada pelos exportadores francanos é produzir calçados de maior valor agregado e desviar os negócios com a América do Norte para outras regiões. A Agabê, por exemplo, tem investido na Europa, participando das principais feiras do continente e contratando representantes. ‘Hoje, a maioria dos pedidos que recebemos é de lá’, afirma o diretor da empresa, Miguel Heitor Bettarello (a segunda mais antiga, depois da Samello).
O sapato chinês é sobretaxado em 35% nas alfândegas da Europa. É uma vantagem. Outra é a possibilidade da exportação ser realizada em euro, que na troca pelo real vale muito mais do que o dólar. Porém, boa parte dos importadores europeus não compra calçados na sua moeda e sim na norte-americana, diz José Rosa Jacometti, mais conhecido como Zuza, dono da marca Anatomic Gel. ‘Ou senão, fecham negócio com o euro cotado em dólar’, acrescenta.
Há indústrias que, a partir de junho, reduziram suas exportações pela metade. A queda acentuada está sendo compensada parcialmente, agora, com as encomendas do varejo nacional.
Terminado o ano, tem-se como inevitável a dispensa de muitos trabalhadores. Todo primeiro trimestre é tradicionalmente ruim para os fabricantes de sapato masculino. O próximo será pior, com as vendas externas encolhendo, a menos que ocorra algum milagre.
Franca exportou 4,173 milhões de pares de janeiro a setembro, no valor de US$ 96,881 milhões. Em relação ao mesmo período do ano passado (4,773 milhões de pares e US$ 103,211 milhões), os embarques e a receita recuaram 12,52% e 6,13%, respectivamente. O faturamento caiu menos porque o preço médio avançou 7,26%, passando de US$ 21,62 para 23,19. A informação é do sindicato calçadista, baseada em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
Aparentemente, foram quedas significativas mas que não representam o fim do mundo. O detalhe é que as exportações da cidade estão despencando desde 2004. Ou seja, as comparações são de perdas sobre perdas. Na realidade, as atuais são muito maiores, olhando-se para o passado. Neste ano, até setembro, apenas os embarques de junho aumentaram um pouco em relação a junho de 2006. Caíram feio nos demais meses, ferindo-se bastante no tombo de agosto (menos 22,34%).
MEDALHA NA ALEMANHA
Nos bons tempos das exportações de Franca, as vendas aos norte-americanos chegaram a representar 86% do total. Correspondem agora a 41%. Por enquanto. Em compensação, aumentam em 20 outros países, aproximadamente. Um deles é a Venezuela, do Hugo Chavez, que ampliou suas compras dos calçados da cidade de US$ 3,560 milhões para US$ 8,827 milhões (janeiro/setembro deste ano em relação ao mesmo período de 2006).
Na mesma comparação, no grupo de compradores acima do acumulado de um milhão de dólares, cresceu moderadamente o valor dos embarques para o Reino Unido, França, Colômbia e Bolívia. Foi mais expressiva a expansão dos negócios com a Argentina e os Emirados Árabes. O salto olímpico deu-se na Alemanha: a modesta marca de US$ 377 mil passou para US$ 2,9 milhões.
A Espanha figura na quarta posição dos principais importadores do calçado francano, mas o valor das suas compras diminuiu de US$ 6,387 milhões para 5,612. Embora a redução tenha sido muito pequena (de US$ 2,497 milhões para US$ 2,424), o mesmo ocorreu com o Chile, que está em oitavo lugar.
Os maiores aumentos de receita com o grupo intermediário de compradores (média de 650 mil dólares) ocorreram na Austrália, Chipre, Grécia, Guatemala, Kwait, México, Panamá, Portugal, Rússia, República Dominicana e Uruguai.
NORMAL
Parece ser de atleta o eletrocardiograma de infartado comparado ao desempenho dos calçadistas francanos, nos últimos quatro anos. Tomando por base essa medição, tem-se a impressão que a sapataria local está com os dias contados. Ao contrário, na quantidade cresce em progressão geométrica. Sai de cena um médio fabricante e entram dezenas de minúsculos. Isso ocorre aqui desde 1919, quando surgiu a primeira indústria do ramo. A renovação constante dos integrantes é uma das características da atividade. Nada anormal. É igual morte e nascimento de gente.
CONSTATAÇÃO
A vida de sapateiro não é mole, nem a de fabricante. Isso no geral, passando a régua no meio. Há casos dramáticos de tentativas de sobrevivência, tanto de um lado quanto do outro. Entre os fabricantes, os alegres são poucos, predominam as aparências. Os trabalhadores, na maioria, são tristes de fato.
EMPOSSADO
Eleito por unanimidade, Saulo Pucci Bueno assumiu sexta-feira última o comando regional do Ciesp, centro das indústrias paulistas. Isso no papel, porque na prática é o condutor da entidade há tempos, com uma competência exuberante.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.