Depois do crime


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Garotos jogam futebol em momento de recreação dentro da Fundação Casa, a ex-Febem, em Franca: todos evitam falar dos crimes que cometeram
Garotos jogam futebol em momento de recreação dentro da Fundação Casa, a ex-Febem, em Franca: todos evitam falar dos crimes que cometeram
Sexta-feira, 26 de outubro, pouco antes do meio-dia. Um grupo de jovens, entre 12 e 17 anos, se prepara para almoçar. No cardápio, arroz, feijão, pernil, chuchu cozido e beterraba, acompanhados de suco de guaraná. Pouco tempo depois, eles fazem a sesta enquanto assistem desenhos na TV. Na grade de atividades programadas para o restante do dia ainda haveria computação, futebol e até festa de aniversário. Não, eles não estão numa escola particular de período integral. Todos são adolescentes infratores e estão internados na Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, ex-Febem) unidade de Franca. São 29 adolescentes (21 de Franca, 5 de Batatais, 1 de São Joaquim da Barra, Guará e Orlândia) reclusos em regime de internação (já foram sentenciados na Justiça) e internação provisória (aguardam decisão judicial). Todos foram presos após cometerem crimes como roubo, assalto à mão armada, tráfico de drogas, ligação com o crime organizado e uso e porte de entorpecente. Num primeiro momento, se não fosse a placa de inauguração com o nome da unidade em homenagem a Dom Hélder Câmara na entrada da Casa, que completou um mês no dia 14, e uma revista minuciosa feita pela equipe de segurança em quem entra no local, o prédio poderia ser confundido com uma escola dividida em blocos de três andares interligados por escadas. Com a autorização da assessoria de imprensa da Fundação, a reportagem do Comércio (eu e o fotógrafo Divaldo Moreira) passou uma tarde na unidade e conheceu de perto como é a rotina desses jovens. Dentro da Casa, a não ser pelas grades amarelas e o forte esquema de segurança implantado, não há outros indícios de aquele ser o universo de uma cadeia para recuperação de adolescentes criminosos. Administrada pelo Governo do Estado de São Paulo em parceria com a Pastoral do Menor de Franca, a ex-Febem é cheia de normas e horários estabelecidos para serem cumpridos à risca. No momento da internação, os adolescentes recebem uma apostila de normas e direitos, a qual é lida passo a passo e depois colocada em local visível no quarto. Respeito e liberdade são algumas das palavras de maior peso na unidade e estão presentes nos cartazes espalhados pelos corredores e também nas atitudes dos internos. Eles só se dirigem aos funcionários e aos visitantes como senhor, senhora ou dona. No horário do almoço, entram no refeitório de dois em dois, lavam as mãos, se servem e só começam a comer depois de todos estarem na mesa e rezarem o Pai-Nosso. “É sempre assim, eles ficam em silêncio o tempo inteiro. Quando conversam, a voz é baixa e você quase não houve”, disse uma educadora que acompanhava os internos. COMO SÃO A maioria tem pele morena e o cabelo raspado, são poucos os negros ou loiros. Naquele dia, usavam uniformes com camiseta branca, calça de moletom cinza ou short marrom, chinelo ou conga azul. As conversas têm como assuntos principais o dia-a-dia no local e quanto tempo estão internados na unidade. Sob uma rígida vigilância dos educadores, eles evitam falar sobre o que fizeram antes da internação ou sobre os detalhes do crime que cometeram. Todos são réus primários, mas cometeram crimes graves - espancaram suas vítimas durante um assalto, participaram de roubos armados ou até tentaram matar alguém. Todo esse histórico, dentro da Casa, fica esquecido. “A maior falta é da mãe. Elas sempre são lembradas, principalmente nas avaliações com os técnicos e psicólogos”, disse Ana Paula Rodrigues, supervisora da Divisão Norte, que na sexta-feira visitava a unidade. Bruno (nome fictício) tem 17 anos e está há dois meses internado. Transferido da unidade de Ribeirão Preto para Franca ficou mais perto da família e passou a ter maior interesse pelos estudos. “Quando estava lá fora, não via a importância de estudar. Agora, estou na 8ª série, quero montar minha família e ser médico”, garante o menino que foi preso por tráfico de drogas. Com um dia que começa às 5h30 com o despertar e só termina após as 21 horas, os adolescentes freqüentam a escola dentro da própria unidade, recebem quatro refeições, têm momentos de oração, oficina de dança, biscuit, bijuterias, teatro e expressão corporal, encontros de orientação profissional, artes plásticas, oficina de recortes, computação, esporte e, em breve, aulas de jardinagem e paisagismo. Quando descumprem alguma norma ou desrespeitam os educadores, são chamados a atenção e recebem uma sanção. Na sexta-feira, um dos adolescentes que havia discutido com uma funcionária apresentou aos técnicos da unidade um seminário de reflexão sobre mudança. “Às vezes há uma certa resistência, por isso, essa é uma forma de fazê-lo pensar sobre o assunto”, explicou a encarregada da área técnica, Elaine Aparecida de Souza. Divididos em quartos, com móveis de alvenaria, identificados por cores (azul, verde e amarelo) de acordo com a fase do tratamento, todo o programa dura, no mínimo, oito meses e no máximo, três anos. No total, o adolescente passa por três fases de recuperação. Conforme a evolução de comportamento, ele avança uma etapa e obtém benefícios. O custo médio mensal é de R$ 2,3 mil por adolescente. Bem mais que a mensalidade de uma boa escola em tempo integral.

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