A rotina, todos os dias, começa cedo, pouco depois das 9 horas. Fazer massas, preparar recheios, picar legumes, escolher frutas, fritar pastéis, assar esfirras, fritar hambúrgueres. O batente vai, nesse ritmo, até depois da meia-noite. No balanço geral, mais de 250 lanches foram montados, além de centenas de salgados, sucos e refrigerantes servidos. Esse é o dia-a-dia dos seis funcionários das duas unidades do Kão Kente e de seu proprietário, Sebastião Pedro de Oliveira, 50, o “Tiãozinho”.
Essa realidade de sucesso e agitação, porém, é nova: vem de três ou quatro anos para cá. No início, em 1995, vender lanches na região do Parque Vicente Leporace, no auge das brigas entre a gangue do bairro, conhecida como “Pebas”, e turmas de outras localidades, parecia inviável. Mas “Tiãozinho” resolveu arriscar. “No início, a minha intenção era ajudar meus irmãos que estavam desempregados. Bem ou mal eu já tinha meu salário, pois sou professor. Aí, acabei tomando gosto e estou no ramo até hoje”, disse.
Não só ele, como outras dezenas de pequenos comerciantes que, com o sucesso do Kão Kente, decidiram montar seus carrinhos e lanchonetes ao longo da Avenida Abrahão Brickmann, principal via do Leporace. “Tiãozinho”, diz que não se incomoda com a concorrência, que surgiu no vácuo de sua idéia. “Acho que tem espaço para todo mundo. Isso até incentiva, porque a gente busca fazer algo diferente em relação aos outros”, afirmou.
E essa visão do “diferente” se tornou, de fato, o grande atrativo do Kão Kente. Primeiro, quando o negócio começou a dar lucro (ele não revela o faturamento), “Tiãozinho” decidiu ampliar suas instalações. Trocou seu carrinho de 3 metros quadrados por um trailer com mais de dez metros quadrados. Implementou, também, o controle de higiene e qualidade em bolotas de bairro. Foi pioneiro no uso de luvas, máscaras e aventais. Separou, também, o dinheiro da comida. “Eu sou rigoroso com isso. Quem mexe no dinheiro não mexe nos lanches. Os clientes, sejam ricos ou pobres, merecem, sempre, o melhor”.
A clientela adotou o estilo do Kão Kente. E a fama se espalhou, no sistema boca-a-boca, pelos quatro cantos da cidade, mesmo sem “Tiãozinho” nunca ter feito propaganda na mídia e não contar com serviço de entrega. Segundo ele, é comum chegarem em sua lanchonete clientes de bairros distantes, como Jardim Noêmia, Vila Hípica e Jardim Esmeralda. “Todos dizem que alguém lhes indiciou que no Leporace tem um lanche muito bom. Aí, como os francanos adoram lanches, acabam me encontrando e virando clientes”, disse o comerciante.
O movimento aumentou e, com isso, o Kão Kente passou a ter um problema. Os funcionários não davam mais conta da demanda, que chegava a 250 lanches em uma só noite. Com isso, o tempo para atendimento dos clientes se dilatou - via de regra, a demora ultrapassava uma hora. Daí, há dois anos, surgiu a idéia de montar uma segunda loja, a 200 metros da primeira. Mais uma vez, deu certo. Hoje, o maior concorrente de “Tiãozinho” é, justamente, sua filial. “Trabalhar com o povo não tem segredo. É só oferecer o melhor e atender bem com preços justos. Me considero abençoado com esse meu negócio”, afirmou.
Embora seja reservado em relação à vida financeira, o comerciante, após o negócio deslanchar, ganhou condições de dar um salto em seu padrão de vida. Hoje tem condições de viajar, fazer as coisas que tem vontade e ajudar familiares que, eventualmente, necessitem. O difícil, segundo ele, é arrumar tempo. “Minha situação melhorou um pouquinho mesmo (risos). O problema é que não sobra tempo para muita coisa, pois eu trabalho muito”. Solteiro, “Tiãozinho” mora em casa própria e poderia desfilar em um carro do ano. Mas, sempre discreto, prefere circular pela cidade em um veículo Monza.
‘TEM QUE TENTAR’
Segundo “Tiãozinho”, a receita para uma pessoa de origem simples, que teve uma infância pobre, vencer na vida é a perseverança. Para ele, é necessário que se foque um objetivo e faça de tudo para colocá-lo em prática. “A oportunidade é a gente que cria. Não adianta ficar parado, esperando as coisas caírem do céu. Para mim, quem tem o sonho de ter o próprio negócio tem de acreditar, trabalhar bastante e ir até o fim para ver no que dá”, disse, ilustrando o conselho com seu próprio exemplo. “O Kão Kente deu certo e muitos outros podem dar também. Mas para isso é preciso ter coragem e começar”, afirmou.
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