Terapia do grito?


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Está no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. “Lixeiro, substantivo masculino, empregado público encarregado de recolher o lixo das residências”. A descrição social do exercício profissional de quem se dedica a catar lixo pode não dar orgulho a quem vive disso, mas dá livro, filme, reportagem de jornal, revista, televisão. A função não se delimita ao significante da palavra. Há lixeiros-crianças, obrigadas pela vida a freqüentarem lixões em busca do que pode ainda servir no meio do que é inservível para a sociedade; há lixeiros-margaridas que recolhem em praças e vias públicas o que se atira pelas janelas dos carros; há lixeiros-de-recicláveis, que passam antes dos lixeiros convencionais em busca de transformar papelão, vidro e metal em arroz, feijão e mistura para, pelo menos uma refeição sua e dos seus, na casinha da periferia construída com sobras de tijolos, madeira, latas e lonas que não se consegue vender. Pergunte-se, você que me lê, quantos lixeiros conhece ou conheceu. Poderá se lembrar de um; talvez alguns poucos. A verdade é que o lixeiro se esconde e não se dá a conhecer. Prefere não contar o que faz. Apesar de saberem que a função a que se dedicam é nobre – imaginem ficar sem o serviço por alguns dias ou semanas – profissionais da área andam mudados. Os tenho visto literalmente “gritando” pelas ruas e tive a atenção despertada pela “inovação”. A curiosidade profissional me remeteu a “perseguir” um caminhão de coleta por cerca de 30 minutos. As cenas se sucediam e eram estranhas. Os contidos e silenciosos lixeiros de outras épocas foram substituídos por jovens que produzem algazarra chamando a atenção das pessoas, saudando quem sai à porta para ver do que se trata. O mais estranho estava por vir. Houve um momento em que o caminhão que eu “perseguia” cruzou com outro, da mesma empresa e aí os gritos vieram dos dois lados. Não mais saudações e sim, xingamentos, achincalhamento, ao estilo do que os jovens fazem quando encontram amigos. É interessante pensar no assunto. Conversei com Durval D’Avanço, um experiente gerente de coleta de lixo, que está na Colifran há 16 anos e lhe perguntei: a empresa está estimulando a algazarra, como a uma espécie de terapia do grito, para motivar coletores - ops, lixeiros - a trabalharem mais ligados? Pede a seus funcionários que utilizem este recurso para atrair a atenção dos cidadãos que se esqueceram de botar o lixo na rua, como um ‘lá vem os lixeiros, deixe-me correr’? Estimula-os a utilizarem a mesma técnica dos funcionários de padarias, casas de carnes e peixarias dos hipermercados da cidade, eles que batem sinos, chamam a atenção da clientela baseados no bom humor e na prática do que Berkeley pregava com seu “ser é ser notado”? Entendia que, apesar do mau jeito com que os jovens coletores usavam a técnica, havia sim, algo de aproveitável naquilo. As resposta de D’Avanço foram um balde de água fria: “não, não e não. Em nenhuma circunstância podemos perturbar o sossego dos cidadãos e quem não se enquadra, é dispensado”, sentenciou. Uau! Corri atrás do que considerava uma inovação e descobri que é bagunça generalizada... NÚMEROS São oito caminhões de coleta de lixo durante o dia e cinco à noite (estes, trabalhando entre 17h30 e 02 horas). Em cada caminhão, além do motorista, quatro coletores - ops, lixeiros - que devem realizar seu trabalho na maior surdina e comprometidos com a eficiência (não deixar nada para trás e nem deixar cair nada pela rua) e eficácia (fazer tudo no menor espaço de tempo possível). Cada um dos coletores da Colifran corre cerca de 40 quilômetros por dia atrás do caminhão de coleta, ora pendurados, ora em ziguezague no meio do trânsito assassino de Franca. AMONTOAR EM ÚNICO LUGAR Percorrer as ruas antes da coleta e amontoar os sacos de lixo para ganhar tempo, não pode. D’Avanço afirma que isso é retrabalho. O caminhão tem de percorrer seu setor e os coletores - ops, lixeiros - devem realizar o recolhimento rapidamente, cuidando para que os sacos de lixos tenham o endereço da caçamba. Afirma que quando os sacos são amontoados, há o risco de que ao serem atirados no caminhão, se choquem contra a carroceria e se espatifem no chão. (Assisti a esse filme!) CHORUME É aquele líquido mal cheiroso que escorre do lixo. Quando o caminhão pára para recolher amontoados de sacos, vaza. Bate o sol e vem o mau cheiro. (Assisti a esse filme!) DESEMPREGO D’Avanço me disse que a empresa dispensou funcionários por causa de condutas do tipo. E contratou gente nova, jovem, determinando a norma. E que não está adiantando. Os sacos continuam sendo amontados. A gritaria persiste, com palavrões embutidos. Os sacos continuam sendo atirados aos caminhões, de qualquer jeito, explodindo e se transformando em um rastro de sujeira que testemunha ‘por aqui passaram os coletores - ops, lixeiros - de Franca’. Você, que me lê, está satisfeito?

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