É comum ouvir de quarentões: ‘Eu gostaria de ter vinte e poucos anos, mas com a cabeça de agora’. Supõem que o jovem com uma mente mais madura arrasaria. A energia unida à sabedoria, pensam, seria uma grande combinação. Pois eu, mais do que quarentão (48), acho que isso não passa de ilusão. Se alguém consegue decifrar todos os enigmas, sabe o segredo para abrir todas as portas, tem resposta para qualquer pergunta, freio para todos os impulsos, palavras certas para todos os momentos, esse alguém não sou eu.
Hoje tenho respostas para situações em que me calei quando jovem, há décadas, mas, pensando bem, se as respostas não vieram na hora foi porque talvez não devessem vir mesmo, pois o melhor era realmente o silêncio. O tempo é um ótimo professor e, assim, seria de se esperar que a pessoa, quanto mais velha, mais sábia.
Só tem um problema: o bom mestre nada faz por quem não quer aprender. Portanto, mais idade nem sempre é sinal de melhor cabeça.
O jovem tem inseguranças, incertezas, etc., mas é mais autêntico, alegre, sonhador, criativo. Quem gosta de música sabe que a maioria das obras-primas foi composta por jovens. Ser mais rodado, ter mais anos de janela, não significa ser fecundo, mais maduro, seguro de si, ter mais visão de mundo; não quer dizer que se tem mais consciência do certo e do errado e que se age segundo essa consciência. Muitos da meia-idade nunca estão satisfeitos, querem sempre mais dinheiro, mais coisas materiais. Nessa busca insana perdem a identidade, são dissimulados, não têm um perfil definido, confundem-se na interpretação de vários personagens, invertem os papéis. Qual a idade mental do juiz Nicolau e do jornalista Pimenta Neves quando praticaram os crimes de que foram acusados? E do senhor José Sarney quando adotou o Amapá como domicílio eleitoral? E do senhor Renan Calheiros, que ainda não se deu conta de que é apenas um espectro de senador? Alguns erros, compreensíveis quando praticados por jovens, não o são se cometidos por senhores. Assim, nada de estragar os mais novos com mais dúvidas, com as crises da ‘idade do lobo’, os lapsos de memória.
A meia-idade é uma fase que desafia. Se não tomar cuidado, vira vida vazia, corpo quente em alma fria. Por vezes o homem tanto se desnorteia que não sabe se é caçador implacável ou fera ferida; se é senhor mandão ou amável serviçal; se onde deveria estar o bem não está o mal; se é velório ou carnaval. Nada lhe apetece.
Às vezes desconhece o próprio conteúdo: cheio de nada ou vazio de tudo? Não sabe bem o que acontece; o que se assemelha a uma maravilha pode ser mesmo uma grande armadilha. Nem tudo é o que parece. Não raro a mente fecha e não se acha uma brecha. Fica em dúvida se vai ou fica; o que é simples, complica. Gastam-se tempo e dinheiro com coisas sem substrato, define-se ‘contrato’ como algo nem concreto nem abstrato, perde-se o contato com o real, embrenha-se nos labirintos do virtual, acaba-se num mundo frio, num buraco existencial. Melancolia, insatisfação, bolso cheio, mente vazia.
Qual a saída? Viver no seu tempo, no seu momento. É feliz quem, mesmo a duras penas, aprende com a vida, aceita as mudanças que vêm com o envelhecimento, contenta-se com o que fisicamente aparenta; não se ilude pensando que há requinte em trocar a mulher companheira, na casa dos quarenta, por uma brejeira, de vinte; sabe que com a idade o vigor e a beleza física declinam, mas a força espiritual pode e deve aumentar; deixa certas veleidades para os jovens, libera o caminho para as novas gerações. Afinal, não dá para mudar a natureza, inverter as estações. Tudo a seu tempo.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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