Não chores mais Argentina


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Contrastando com o louro e heráldico coque de Eva Perón, surge nos céus da política internacional a novidade argentina Cristina Kirchner, primeira mulher eleita presidente no país do tango. Uma nova versão de ‘não chores por mim Argentina’, começa a ser composta na Casa Rosada, em meio à manifestação do grito abafado no peito em várias gerações, finalmente “Habemus Praesidentis”. Foi no Sri Lanka, em 1960, que pela primeira vez uma mulher assumiu a direção de um país. Mas o gostinho mesmo veio com a ascensão de Margareth Thatcher em 1979, na Inglaterra, se constituindo na “dama-de-ferro”, como ficou conhecida, na única mulher do planeta no comando de um país rico. Passaram-se três décadas e as coisas não mudaram muito. Atualmente, somente Ângela Merkel senta-se à mesa dos poderosos do G7, que reúne as nações mais ricas do mundo. Marie Segoléne Royal, a candidata socialista da França em 2007 raspou: dois milhões de votos a menos a separaram do vencedor, candidato da centro direita, Sarkozy. A Argentina já esteve entre os países mais ricos do mundo, graças a uma Constituição liberal muito bem costurada em 1853, que estabeleceu rigor jurídico e uma democracia pluralista, produzindo prosperidade a partir de recursos naturais. Tido como país mais culto e alfabetizado da América Latina, decaiu após a década de 20 por causa de correntes políticas de mentalidade populista e autoritária. Tanto lá como cá, a corrupção tem rolado livre, leve e solta. De acordo com o relatório da ONG Transparência Internacional, gastos de campanha neste ano ultrapassaram e muito os limites permitidos por lei (grande parte do dinheiro vem dos cofres públicos). Em que pesem denúncias de corrupção, crise energética, a enorme dívida social deixada, inflação sofrida no bolso do consumidor, herança do governo, o povo argentino não resistiu ao doce charme do casal Kirchner, inaugurando o kirshianismo. O apoio ao governo veio da população que recebe subsídios dos projetos sociais. Lá como cá, é um povo menos informado e, portanto, mais fácil de manipular. Este assistencialismo foi inaugurado por Eva Perón, que, aliás, ia mais além. Evita era uma líder nata, carismática, entendia os anseios da população, com quem falava diretamente, ao contrário de Cristina, que só a conhece pela televisão. Evita tinha o apoio das mulheres que através dela conquistaram o voto na Argentina, e Cristina não teve esse apoio, segundo os especialistas. Evita conseguiu ser adorada a ponto de enciumar o marido ditador, que a alijou do processo político. Tal desgosto lhe valeu um câncer que a matou no auge dos seus 33 anos. Solitária com suas dores num quarto no final do corredor da Casa, morreu com intensas dores que a transformaram em mártir, Santa Evita dos descamisados. O fazer político de Cristina Kirchner tem sido comparado ao de Michele Bachelet e até ao da Merkel. Não é uma recém-chegada à política. Foi deputada e senadora. Poderá resgatar as frustrações e mudar o discurso histórico: “não chores mais Argentina”. RATATÁ, RATATÁ, RATATÁ O modelo Eva Perón, nem santo nem pecador, pode ser seguido como indicam tendências. Evita foi considerada à época ‘mais macho que muito home’, como canta Maria Rita. Dizem os historiadores que ‘la reina de los descamisados ‘acordava os ministros a altas horas para lhes dar ordens, dissolvia greves, mandava demitir jornalistas e atores por vingança ou capricho, pára, no dia seguinte, devolver-lhes o emprego; hospedava nos albergues milhares de migrantes, inaugurava fábricas: percorria dez ou quinze cidades de trem, improvisando discursos nos quais chamava os pobres pelo nome; xingava como um carroceiro, não dormia... BOMBRIL Os mitos costumam servir a muitas utilidades, de acordo com o tempo e espaço. Era preciso mostrar em Cristina Kirchner uma Evita carismática, dona de um discurso inflamado, trazendo ao mesmo tempo o redesenho de um governo que rompe definitivamente com o passado, disposta mais ao diálogo com a sociedade do que o marido. A associação com Evita foi importante na campanha, de vez que o marido deixa uma herança social de grandes dimensões.Tem ela uma rebeldia diferente da convencional. Promete! O GRANDE SATÃ O FMI, rei da agiotagem mundial, o grande satã na opinião de Kirchner, foi desconsiderado (sic) pelo seu governo nos acertos financeiros. Melhor o irmão Chavez da Venezuela, amigo do presidente Lula, que cobra dele juros imorais na ordem de três vezes mais ao devido ao fundo. Bonzinho, ‘pero no mucho’, é um povo de tentáculos stalinistas, que visa democratizar a ditadura nas Américas. Quem for “pro” abraço, pode dançar! SOY APENAS UNA MUJER ‘Eu sou tal qual a mulher de qualquer um dos infinitos lares de meu povo... Gosto das mesmas coisas: jóias, peles, vestidos, sapatos... Mas, assim como ela, prefiro que todos em casa estejam melhor do que eu. Assim como ela, gostaria de ser livre para passear e divertir-me... Mas me retém como a elas, o dever de casa, que ninguém tem obrigação de cumprir no meu lugar’. (Eva Perón - Santa Evita,Tomas Eloy Martinez)

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