A maldição da Varig


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O último capítulo da crise aérea - o fechamento da BRA - é um reflexo de um dos vícios mais anacrônicos do País: o hábito de punir empresas por erros de seus controladores. Refiro-me especificamente ao fim da Varig, que marcou o início efetivo da crise aérea no País. A Varig tinha uma governança caótica, um modelo exaurido de uma Fundação mais preocupada em administrar os benefícios próprios do que cuidar da sobrevivência da empresa. Mas não era apenas isso. A Varig era uma estrutura montada, competente, com boa manutenção, bom serviço de bordo, normas de segurança acima da média, estrutura de comercialização, malha nacional e internacional. Esse conjunto de ativos intangíveis, que compõem o que se denomina de empresa, é um valor nacional. Quando se permite seu desmonte, está-se jogando fora riqueza nacional. Nenhuma empresa pode ser “culpada” dos desmandos de seus executivos. É por isso que a nova Lei de Recuperação Judicial abre espaço para que, em caso de falência ou concordata, tirem-se e punam-se os controladores, mas preservem-se as empresas. No caso da Varig, a solução era óbvia. Fechada, a empresa tem o valor apenas dos seus ativos: hangares, aviões, marca etc. Em funcionamento, a empresa tem outro valor, gera outro nível de faturamento, mantém clientela, mantém distribuição. O correto teria sido preservar a Varig, afastar seus controladores, vender seu controle para grupos idôneos, que definissem estratégias novas, implantasse nova gestão. Mas foi impossível, e não apenas pela falta de jogo de cintura da Justiça, mas por um conjunto de outros fatores. Passou pela pressão dos grandes concorrentes para poder ocupar o vácuo da companhia. E completou com o alarido incompreensível da opinião pública, tratando da salvação da empresa como se fosse a salvação de empresários falidos. Não foi um ou outro articulista, mas a mídia em geral, numa demonstração rotunda de que o chamado capitalismo brasileiro, especialmente para seus defensores mais ideológicos, não passa de um amontoado de clichês. Essa confusão entre o controlador e a empresa foi geral. Portas-vozes de uma suposta modernidade atacaram qualquer solução que significasse a manutenção da empresa operando. E da parte do governo Lula, houve a falta de ação absoluta, uma inércia que permitiu que a agonia da Varig se prolongasse por anos, sem que nada fosse feito. Hoje o País paga caro pelo desleixo, pela ignorância, por esse mercadismo de araque que domina o discurso público, de não saber separar empresa de empresário. Primeiro, pela incapacidade do setor de atender ao aumento da demanda. Depois, pelo fim da competição, levando a uma ampla deterioração dos serviços públicos. Pelo desemprego de milhares de pessoas e pela evasão de pilotos e técnicos tarimbados, que estão fazendo falta nesse processo de expansão desordenada da malha aérea. Finalmente, por ter substituído uma empresa do padrão Varig por aventureiros, como essa BRA que acabou de fechar. CONTAS O fluxo de dólares para o Brasil voltou a ficar positivo no mês passado, numa sinalização de que, pelo menos por enquanto, as turbulências dos mercados internacionais já não afetam a entrada de capital externo no País. Segundo dados do BC, foi registrado um ingresso líquido de US$ 6,772 bilhões em outubro, contra uma saída de US$ 3 milhões apurada no mês anterior, quando os investidores estavam mais cautelosos devido ao agravamento da crise do mercado imobiliário norte-americano. Com o resultado de outubro, o fluxo acumulado no ano chegou a US$ 76,776 bilhões em recursos externos, valor 118% maior do que o apurado no mesmo período de 2006. O crescimento foi puxado pelo maior ingresso de dólares referentes às chamadas operações financeiras - empréstimos e investimentos estrangeiros, entre outras transações. Neste ano, essas operações foram responsáveis pela entrada de US$ 10,611 bilhões no País. Nos primeiros dez meses do ano passado, ao contrário, foi registrado uma saída líquida de US$ 9,473 bilhões. O comportamento da balança comercial também ajudou a manter o fluxo positivo de dólares para o Brasil neste ano. Entre janeiro e outubro, as operações de comércio exterior responderam pelo ingresso de US$ 66,165 bilhões para o País, o que representa um crescimento de 48% em relação a 2006. GÁS ACABANDO O presidente Lula disse ontem que “é preciso acreditar que não vai ter crise energética”. Lula criticou as pessoas que tem falado sobre uma crise no abastecimento de gás e afirmou que o Brasil tem energia elétrica garantida até 2012. “Aconteceu um probleminha de gás no Rio de Janeiro e acabou a energia do mundo? Não, não acabou. Esse país tem energia garantida até 2012. Vamos achar e comprar o gás que precisar”, disse o presidente. No começo da semana, Lula já havia negado um possível risco de desabastecimento de gás no País. O presidente disse que já conversou com o presidente da Bolívia, Evo Morales, e marcou uma visita ao país no dia 12 de dezembro. Anteontem, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, se encontro, em La Paz, com o ministro de Hidrocarbonetos, Carlos Villegas, para conversar sobre a retomada de investimentos do Brasil na Bolívia.

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