A fala do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, ao atribuir a culpa da marginalidade à alta taxa de fertilidade de mães faveladas, vem surpreender o mundo da ética da cidadania e principalmente da solidariedade humana.
Pelo discurso dá para se ter uma noção dos pensamentos que pairam pelas cabeças da burguesia dominante. Essa elite costuma ter como indicação para solucionar a violência, opiniões como estas: ‘uma bomba atômica nas favelas’ ou ‘a polícia devia matar mais bandidos’ (do que já mata), ‘indigência não tem cura, é crônica’. E por aí afora.
Quanto a mendigos, torna-se insuportável nessa ótica, vê-los com sua sujeira exalando o mau cheiro do lixo, produto de lautos e ‘blasés’ jantares, onde em comum se tem altos interesses, sempre pessoais. É o filme já visto, que poderia perfeitamente se intitular ‘A lista de Hitler’, acrescentando deficientes físicos e mentais, idosos e todos considerados inúteis à civilização (sic).
A busca de informações para compor a série histórica dos semelhantes aos ‘Luizes de França’, encontrou alguém com nome de rei, e que para felicidade nossa não chegou a ser rei (corrigindo...) presidente, da nação brasileira: Carlos (Henrique Werneck de) Lacerda, o equilibrista que governou a Guanabara nos idos 1960/1965, sobejamente conhecido como grande tocador de obras e de gente, principalmente.
Com olho na presidência da ‘res’ que naquele tempo já não era tão ‘pública’, construiu uma estratégia de aproximação com a burguesia (banqueiros, empresários, comerciantes e políticos). A Zona Sul e o Centro da capital da Guanabara, por determinação sua, transformaram-se em locais limpos e aprazíveis, quase europeus mesmo, graças à intervenções desenvolvimentalistas, contemplando milionários projetos imobiliários regados a muito favorecimento, dando origem ao lacerdismo vigente. Desde Lacerda, todo mundo favorece!
Com o apoio do governo dos EEUU, de quem se tornara aliado, determinou a remoção de grandes favelas e levou a força para conjuntos habitacionais distantes, seus moradores. Cidade de Deus, Vila Kennedy, Vila Aliança (Bangu) e Vila Esperança (Vigário Geral). E aqueles que retornavam, sujeitavam-se a serem afogados nos rios Guandu e da Guarda, repito: afogados! Desde Lacerda todo mundo acha que lugar de mendigo é no leito... de um rio!
A elite agradeceu as ações do governador, não importando os métodos cruéis que tinham sido usados e nem que o resto da cidade estivesse no caos e, sua população absolutamente desassistida. Foi esse o reconhecimento que concedeu ao povo, que sempre lhe dera sustentação política e que depois, como era de se esperar, virou-lhe as costas.
O apoio americano que determinou a ‘remoção’ das favelas, seguiu a cartilha do Relatório Kissinger, embora concluído em 1989, já era conhecido na política do extermínio. ‘Implicações do Crescimento da População Mundial para Segurança e os Interesses Externos dos EEUU’, é o título.
“Por isso, cuidado meu bem, há perigo na esquina...”. Pegando a deixa do Belchior, qualquer coisa é menor do que a vida de qualquer pessoa, por isso meu bem, nenhuma forma de extermínio pode vencer. O sinal tem que teimar em estar aberto para o amor, que ainda é coisa boa.
SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO
Trata-se de homens e mulheres que, por não se relacionarem mais com o trabalho, também não se relacionam com o dinheiro. Geralmente não possuem existência legal, de vez que não têm os documentos que os identificam como cidadãos. Estão no nível mais baixo do sistema de status. Também lhes faltam as fontes de dignidade e respeito, baseadas nos papéis desempenhados, que tipicamente advém para aqueles que estão mais acima na hierarquia social. Empurrados por circunstâncias além de seu controle, ao precipício das indiferenças, sem opção, vivem do lixo e como animais indesejáveis enxotados sem piedade, esperando que a solidariedade os acolha.
OS MISERÁVEIS
“Enquanto por efeito de leis e costumes houver proscrição social, forçando a existência em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este, não serão inúteis” (‘Hauteville-House,1862.1 -Prefácio do livro Os Miseráveis , por Victor Hugo).
ABRIGO PROVISÓRIO
Equipamento social que abriga uma política pública humanizada, um olhar diferente para a indigência. Mantido pela Prefeitura de Franca, resgata a cidadania aos que se encontram nas ruas. Um banho, um prato de comida e uma cama limpa. Alcoólicos ou drogados, famintos e sujos, são acolhidos pelo Carvalho e as assistentes sociais, que buscam encantá-los com propostas de uma vida digna. Mas a incapacidade é tanta, tantos danos sofridos, que gostando das ruas, não as trocam por nada. Lá, são amigos do rei....
PAUSA PARA O CAFÉ
Saltou das páginas do livro “Os Miseráveis” para esse cafezinho. É ele mesmo. Jean Valjean. Prestou solidariedade e contou sua vida de miserável. Por um pedaço de pão foi injustamente condenado. Isso no século XIX. Contei-lhe como são as coisas no Brasil, ele não acreditou! Café com gotas de angostura, bebida amarga, porém perfumada. Assim como a vida do Valjean.
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