A atual crise do gás resulta da soma de sucessivos de erros de planejamento cometidos quando, para driblar as restrições dos ambientalistas, o País optou por uma energia da qual não dispunha em quantidade suficiente.
Há mais de dois anos, a ABRACE (Associação Brasileira dos Consumidores de Energia) havia alertado que a oferta de gás no Brasil era menor do que o consumo potencial. A crise não apareceu antes porque, após o racionamento de 2001, sobrou energia e não foi necessário despachar termoelétricas.
Para compreender melhor a crise, é necessário saber como funciona o sistema interligado de energia. As hidrelétricas garantem a parte maior do consumo. Quando os reservatórios chegam a determinados níveis, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) “despacha” as termoelétricas - isto é, autoriza a entrada da sua energia no mercado.
Ocorre que, nos últimos anos, estimulou-se um consumo irreal de gás. O mercado respondeu, cresceu o consumo industrial. As empresas mais prudentes conservaram o sistema multi-combustível - que permite utilizar o gás ou o óleo combustível. Com o aumento do consumo, parte do gás, que deveria ser carimbado para as termoelétricas, foi despejado no mercado.
Agora baixou a dúvida. Se a hidrologia não ajudar e for necessário despachar termoelétricas em grande quantidade, não haverá cadeira para todos.
Não bastasse a perda de competitividade recente, por conta da elevação de todos os preços do Brasil - em todos segmentos -, hoje em dia a oferta de energia é menor do que em 2004, devido a três fatores:
1. Fator Argentina: foi construída uma linha de transmissão para trazer energia da Argentina para termoelétricas a gás. Na época, o gás era abundante na Argentina e chegaria a preço competitivo.
A Argentina entrou em colapso. Além disso, passou a despachar menos gás para Uruguaiana.
2. Fator Bolívia: embora mais confiável que a Argentina, reduziu os montantes máximos para o Brasil, porque vendeu à Argentina, para ajudá-la e porque o preço pago por esta é melhor. Além disso, limitou a quantidade de gás da termoelétrica de Cuiabá.
3. Fator Petrobrás: ao despejar gás para as indústrias, a Petrobrás não conseguiu atender ao mesmo tempo as termoelétricas. O problema foi detectado com certo atraso pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que definiu um prazo para voltar com o lastro aos poucos.
No total, foram 5 mil MW de oferta vendida tirada do mercado, mais do que 10% de toda a energia assegurada do Brasil. Qual país do mundo que pode perder 10% da energia assegurada?
O setor não entrou em colapso porque, em geral, as hidrelétricas informam uma reserva menor do que a efetiva. A reserva corresponde a 95% do regime hidrológico. Então, em geral há uma probabilidade de 95% de ser maior do que o previsto. Nos últimos anos produziram mais do que o lastro físico.
O período das chuvas começa agora. No período da seca a hidrologia não foi boa. Daí o fato de se começar a correr para recuperar o tempo perdido. Um dos desafios é acertar com empresas consumidoras de gás a volta para o óleo combustível.
Agora fica mais clara a mudança ocorrida na Diretoria de Gás da Petrobrás. Nas últimas semanas, a nova diretora, Graça Silva Foster, empenhou-se em negociações com várias empresas paulistas, que aceitaram reverter o sistema, saindo provisoriamente do consumo de gás. Ainda não está nítido qual será o combustível alternativo. Os consumidores preferem bagaço de cana e carvão importado, devido ao custo mais baixo.
O Rio de Janeiro foi o primeiro Estado a investir maciçamente em Gás Natural Veicular (GNV). Além da melhoria da poluição, atendeu à influente categoria dos taxistas. Agora, o Rio se recusa a suspender o gás para empresas e para carros. Caso a Petrobrás consiga reduzir o fornecimento ao Estado, a idéia é suspender o despacho de gás para usinas térmicas. Grande parte das quais, da própria Petrobrás.
Ex-funcionário da Petrobrás, ex-presidente da BR Distribuidora, o atual Secretário de Desenvolvimento do Rio de Janeiro, Júlio Bueno, sugere que se mude o foco do problema. A idéia é se juntar com outros Estados e conseguir uma mudança nos critérios de despacho do ONS. O primeiro ponto é eliminar a multa da Aneel à Petrobrás por não utilizar suas térmicas, pela razão de que não há gás disponível. A segunda proposta é inverter a prioridade de despachos. Hoje em dia, como o gás está muito barato, quando precisa despachar novas usinas, o ONS coloca na frente as termoelétricas movidas a gás, que, inclusive, são subsidiadas pela própria Petrobrás. Deveria despachar as termoelétricas movidas a óleo combustível. Mas como seu preço acompanha os do mercado internacional, acaba ficando mais caro e sendo despachado por último.
13º SALÁRIO
O pagamento do 13º salário deve injetar cerca de R$ 64 bilhões na economia do País até dezembro, segundo estimativas do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgadas ontem. O valor médio nacional a ser pago é de R$ 919. Aproximadamente 63,8 milhões de brasileiros devem ser beneficiados, incluindo os trabalhadores do mercado formal - inclusive empregados domésticos - e beneficiários da Previdência Social, aposentados e instituidores de pensão da União e Estados. Pelos cálculos do Dieese, os R$ 64,02 bilhões - que representam 2,5% do PIB - serão distribuídos entre um número maior de pessoas neste ano (5,8% superior) em comparação a 2006.
Segundo a instituição, 3,3 milhões de pessoas passaram a receber o benefício neste ano por terem requerido aposentadoria ou pensão, ingressado ao mercado de trabalho ou formalizado o vínculo empregatício.
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