Perversão e outros temas


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O filme ‘Uma relação pornográfica’ é belo: simples, profundo e instigante. Foi dirigido em 1999 pelo jovem diretor belga, Fredéric Fonteyne, que filmou esta estória para elaborar o fim de um relacionamento afetivo com uma mulher. Versa sobre duas pessoas, anonimamente chamadas de Ela e Ele, que se encontraram através de um anúncio numa revista com o objetivo de realizarem uma determinada fantasia sexual. Encontravam-se semanalmente em um café de Paris, conversavam um pouco e, então, se dirigiam para um hotel para realizarem a tal fantasia. Através da câmera, somos convidados a acompanhar o casal pelos corredores do hotel até a porta do quarto, que se fecha na nossa cara, e ficamos privados de assistir a realização da tal fantasia. Apenas alguns ruídos e informações sobre dores em partes do corpo nos são informados. Por que será? Com o tempo, e as conversas no café, o vínculo entre eles evolui, e eles passam a ‘fazer amor’ ao invés de realizarem o tal ato sexual; e aí tudo muda, inclusive nós como espectadores, que podemos adentrar o quarto e assistir lindas cenas de intimidade entre duas pessoas que se gostam... com seus medos, inseguranças, preocupações, etc. Mas nem tudo são flores... Sustentar em alto nível a experiência de amar e ser amado não é tarefa fácil. A percepção da nossa incompletude, dependência do ‘outro’ e a aceitação da nossa condição humana de fragilidade é trabalhosa. Somos todos feitos de carne, osso e coração, e como dizia Vinícius de Moraes, ‘são demais os perigos desta vida para quem tem paixão...’. Ela e Ele assustaram-se com o que estavam vivendo, e uma ruptura ‘pornográfica’ surge na relação. O amor entre eles resistirá? Partindo do filme, é possí-vel repensar questões importantes: atos perversos, ou ‘pornográficos’, podem ser compreendidos em relação à consideração (ou amor) pela verdade? Até onde o ser humano pode ir para evadir-se de si mesmo, para proteger-se de vivenciar a dor emocional? Podemos pensar as crises conjugais da atualidade como relacionadas à tendência de evasão de tudo que é trabalhoso em prol dos prazeres mais rápidos, fáceis, imediatos e super-intensos? PAULO DE MORAES MENDONÇA RIBEIRO é médico e psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto. Falará sobre o tema no sábado, 10 de novembro, na Unifran. Informações: (16) 3721-3198- com Carina.

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