Quando o mundo nasceu os homens tentaram construir uma torre que os levasse aos céus. Deus, lá do alto, riu da pretensão.
A moçada foi em frente. Um dia, o Senhor deu uma espiadinha na Terra. Indignou- se. A obra - Torre de Babel - estava chegando lá. Ele, então, castigou os abusados. Criou seis mil e tantas línguas. Mais: puniu o Português com uma maldição extra. Ninguém iria saber usá-lo. Nem Ele.
No último fim de semana, na sexta-feira, acompanhei atentamente o artigo escrito por Sônia Machiavelli Corrêa Neves na coluna Opinião, aqui no Comércio da Franca, com o título ‘A indigesta muçarela da discórdia’ e percebi que ela pretendia dar um basta nessa polêmica que já vai longe. Luiz Neto, editor da coluna Opinião confirmou minhas suspeitas, ao reconhecer que o jornal recebeu dezenas de e-mails discordando da grafia muçarela.
Alguns, mais exaltados, achando que muçarela é grafia de ignorante, quando a forma ortográfica é reconhecida pelos dicionaristas brasileiros e portugueses e está grafada no vocabulário oficial da Academia Brasileira de Letras.
Hoje vou arrumar mais encrencas, mas, por favor, poupem Sônia e o Luiz Neto. Mandem suas reclamações para mim. Tenho mais tempo para ouvi-las.
O assunto a ser abordado é o nosso gostoso café espresso. Você sabia que esse cafezinho tirado na hora nasceu na Itália, país de origem do famoso queijo muçarela e recebeu o nome de espresso? O trissílabo não tem nada a ver com rapidez. Na língua de Dante e Maquiavel, quer dizer ‘feito na hora para você’. A tradução mais próxima do original seria ‘exclusivo’. Mas nós optamos pela semelhança das palavras. Trocamos o s pelo x. Ficou expresso.
O assunto desperta discussões. Um amigo meu de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, o Augusto Gonçalves, conhecido como Cambuquira, era dono de um café luxuoso no centro, cidade que todos sabem foi adotada pela colônia italiana. Cansado de ser interrogado sobre o nome do café com s pelos fregueses brasileiros, certo dia distribuiu o seguinte texto: ‘Por que escrevemos espresso com s’. E mostrou algumas razões:
Porque nosso café não foi feito para ser tomado depressa. Porque fica mais sonoro. Porque respeitamos as tradições italianas de preparo e escrita do café. Porque queríamos chamar a atenção.
Porque as pessoas precisam saber a diferença entre espresso e expresso. Porque não somos uma empresa de transporte que carrega café. Porque o café é nosso e escrevemos do jeito que acharmos melhor.
Mais: porque todo mundo pergunta se não está errado. Porque gostamos de quebrar paradigmas. Porque nosso publicitário achou bacana. Porque nossa assessoria de imprensa achou que tinha tudo a ver. Porque a máquina de escrever não tinha a letra x. Porque toda nossa vida é dedicada a um produto que não tem nada de rapidinho. Porque as pessoas ficam curiosas e tomam mais café para saberem a diferença. Porque adoramos ter motivo para explicar o verdadeiro conceito dos cafés especiais para nossos clientes.
Viu a bagunça que arrumei, meu caro Luiz Neto? Como chamar o pretinho fumegante? A tradução não pega. Imagine pedir um ‘exclusivo’ ao garçom. Ele não entenderá. Melhor ficar com o expresso brasileiro. O povo sabido simplificou o tema. O italiano e o nacional soam do mesmo jeitinho.
POSITIVO
Finados é o dia de lembrarmos aquelas pessoas tão queridas que fizeram parte de nossas vidas e das quais ainda sentimos muitas saudades. Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro, tinha uma intuição bonita sobre o que acontece com os nossos mortos queridos. Ele escreveu: “... Foi preciso que se despedissem para que conservássemos melhor em nossa companhia, já sem possibilidade de atritos, desconfianças e tédio. Ficam limpos de qualquer desinteligência. Tornaram-se amor inesgotavelmente.”
NEGATIVO
Nunca soube que leite com soda cáustica, água oxigenada, ácido cítrico, citrato de sódio, sal e açúcar diluídos em água e despejado no leite integral fizessem bem à saúde. Pelo contrário, sempre ouvi dizer que deveríamos deixar as crianças longe destes produtos. O que todos nós gostaríamos de saber é, desde quando estão fraudando e adulterando o leite integral? Se tiveram coragem de fazer isso com o leite, servido principalmente a crianças e idosos, o que podemos esperar de outros produtos? E será que se limitaram apenas ao leite? Outros derivados estão aptos ao consumo?
A resposta chega novamente de Uberaba: 16 mil quilos de muçarela - olha ela aí - foram apreendidos no começo dessa semana naquela cidade. Cerca de 30% do produto estava com a data de validade vencida, o restante com suspeita de fraude e falsificação. Alguns produtos, mesmo dentro da validade, apresentavam alteração como bolor, portanto, impróprios para o consumo. Com esse calor, estavam no forro de um galpão fechado, pode?
DESMORALIZADO
O episódio da adulteração do leite e agora a muçarela vencida em Uberaba expõe as entranhas malcheirosas de um sistema falido e desacreditado como o Serviço de Inspeção Federal. A contaminação é adotada em vários Estados e em diferentes usinas de processamento de leite, denunciou um deputado mineiro. Será que o SIF não detectou esses problemas por incompetência, omissão ou ‘interesse’? Com a palavra, o governo Lula...
CHEIRO DE PASTEL
Uma série de oito novos ônibus, movidos a óleo de cozinha usado, começou a circular nas ruas do condado escocês de Ayrshire no fim de semana. Os bio-bus da companhia Stagecoach oferecerão um desconto de quase 30 centavos de euro aos passageiros que trouxerem consigo um pouco de seu óleo usado. Até que um cheirinho de pastel nas ruas de Franca seria bem-vindo. Certamente melhor que o cheiro insuportável dos bueiros e da fumaça preta.
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