Que saudade daqueles bons e velhos tempos em que podíamos beber do saudável produto derivado das “mimosas do pasto” sem nos preocuparmos em sabê-lo batizado com substâncias venenosas prejudiciais à nossa saúde, idealizado por bandidos da pior estirpe.
O desmantelamento dessa quadrilha-cooperada responsável pelo leite “curta-vida”, que atuava livremente no segmento de laticínios prova mais uma vez a fragilidade das políticas fiscalizadoras que em nada intimidam. Ponto para a Polícia Federal com o sucesso da operação “Ouro Branco” responsável por desarticular a organização criminosa.
É de se espantar o que o ser humano faz para acumular “lucro fácil”. No caso, traíram a confiança de milhões de consumidores, adicionando (criminosamente) soda cáustica e água oxigenada a alimento consumido em larga escala pela população.
A prática não é nova. Nossos poetas do sertão já cantavam modas de viola abordando tema semelhante no passado, ao contarem, a exemplo, história do leiteiro-malandro que para obter o tal “lucro fácil”, adicionava água ao leite. “Batizava” o produto e seus rendimentos praticamente dobravam.
O problema daqueles que se acham “espertos” começa quando esbarram em alguém mais esperto ainda. Pois é, voltando à letra da música, a vida do leiteiro-malandro se complicava; ele não imaginava que estava sendo observado, e não era por outro bípede-humano. Nesse caso, por ironia, ao destino coube colocar em seu caminho, o macaco!
Num saco o leiteiro escondia a polpuda fortuna construída com a trapaça. Embora seguro de si e dizendo, “não há nada nesse mundo que o homem queira e não faça”, não imaginava o macaco de olho no seu tesouro guardado.
Um dia, o macaco (refletindo sobre evolucionismo) indignado com a desonestidade do homem e se sentindo “envergonhado por saber que no passado éramos da mesma raça”, decidiu punir o leiteiro retirando do esconderijo o saco de dinheiro e o lançou, com a desgraçada fortuna, às águas de um rio. Tomado de profundo desespero e movido por alguma consciência que ainda lhe sobejava na vida, o leiteiro concluiu: “que destino foi o meu, tudo que a água me deu, a mesma água levou”.
A coisa é séria, mas não deixa de ser curiosa quando observamos os dois casos. O leiteiro-malandro primeiro perdeu tudo que tinha, levado pela mesma água que multiplicava seu lucro e o enriquecia; já o grupo de adulteradores alterou a substância, que deixou de ser inofensiva e passou a ser nociva, tóxica e venenosa. É a história se repetindo. E olha que não foi por um macaco. Menos humilhante para eles...
RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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