Sem discussão, manifestações de artistas, opiniões, concurso, participação do povo, consenso, sem nada disso que caracteriza a pluralidade de idéias e o pleito no regime democrático, o francano foi informado ontem, pelo Comércio, de que tem uma nova bandeira. A notícia oficial foi publicada na página D-7, em forma de decreto.
Quem será que a concebeu de maneira assim unilateral?- terá se perguntado o leitor que ainda mantém esperança de opinar como cidadão. E que estética é essa que recorta o mau gosto e configura no todo um tosco trabalho de aprendiz que mescla imagens vetoriais, bitmap e clipart! Aliás, as imagens do sapatinho (representação diminuída da indústria calçadista francana) e da bolinha (símbolo presumível do basquete que muitas honras trouxe à cidade) foram cedidas? autorizadas?
De uma coisa se pode ter certeza: o autor da nova bandeira pode não ser expert em artes plásticas, mas gosta de fazer suas artes na telinha do computador. Isto fica muito evidente logo ao primeiro olhar. Que o digam as vetustas e chapadas, pois mal recortadas, figuras do Capitão Geral da Capitania de São Paulo, Antônio José da Franca e Horta, e do líder do movimento conhecido como Anselmada, vulto histórico que não se encaixa muito bem na mitologia do herói, Anselmo Ferreira de Barcellos.
Pessoalmente acho que seria mais justo homenagear o Capitão Hipólito Antônio Pinheiro. Este pelo menos doou as primeiras glebas onde se ergueria o Arraial do Capim Mimoso.
Forma à parte, vamos ao fundo. Por que mudar uma bandeira? A brasileira vem desde a proclamação da República e mantém-se quase intocada (foram acrescentadas estrelas que corresponderam à criação de novos estados, apenas isso). A mesma consideração vale para as bandeiras inglesa, americana, francesa, alemã, italiana, argentina, nigeriana, australiana etc. Permanecem como foram criadas no instante de afirmação das nacionalidades.
A bandeira é o símbolo de uma comunidade, e como tal mantém-se inalterada, reforçando por gerações sucessivas os elementos constitutivos da comunhão de ideais e de interesses. É por isso que em país estrangeiro somos acometidos de súbita emoção ao vermos nossa bandeira hasteada, desfraldada. Fala-nos à memória, à alma, à emoção e à razão a soma de cores, formas e emblemas. A fixação deste conjunto ao longo do tempo é que torna ainda mais forte e significativo um símbolo nacional. A bandeira é um deles. No caso da brasileira, “símbolo augusto da paz”, “lábaro estrelado”, “pendão da esperança” etc.
Para alguns vereadores de Franca que argumentaram dever a bandeira ser repositório de signos conforme a transformação da comunidade que representa, lembremos que poucas nações mudaram tanto nos últimos dois séculos como os EUA. Pergunte-se a qualquer americano se ele vê razão para acrescentar algo às listras e estrelas. Ele será enfático ao responder NÃO. O mesmo dirá um francês diante de seu drapeau azul, branco e vermelho.
Mas somos brasileiros e às vezes um pouco apáticos no que tange ao sentimento de pertencimento a uma comunidade. Pode ser que à maioria dos vereadores não importe a troca da bandeira da cidade por outra. Fica parecendo que é como um trocar de roupas, uma mais vistosa e mais colorida que a outra. A nova tem bolinha e sapatinho, mostra o brasão e - oh! maravilha - exibe um diamante que parecerá aos estranhos ser Franca uma verdadeira África do Sul. Mas acho a bandeira anterior, de novembro de 1972, muito mais bonita. É limpa, fala em suas cores e formas de nosso céu, de nosso café, de nosso couro e de nosso calçado. Traça com poucos elementos a nossa identidade.
A propósito, parafraseando Connan Doyle, por seu personagem Watson: a quem interessa a troca de bandeira???????
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