As discussões em torno do meio ambiente costumam focalizar assuntos que beiram a inflamação e alcançam o limite, como o aquecimento global e o desmatamento ostensivo. Espera-se a eclosão da ferida antes de usar métodos preventivos. Assim se tem delineado a agenda dos encontros internacionais, que reúnem autoridades cada vez mais entusiasmadas, ao redor de temas como a proteção da biodiversidade, a mudança climática e a desertificação, embora se faça a projeção de que novos problemas virão como pauta e demandarão saídas inauditas porque já se esperou demais. A maior culpa temos mesmo por pensar que a natureza está à nossa disposição para servir aos caprichos humanos.
A Rio 92 congregou, em junho de 1992, 108 chefes de Estado para discutir a introdução da idéia do desenvolvimento sustentável, que configura um modelo de desenvolvimento econômico menos consumista e mais compromissado com a preservação do meio ambiente. É daí que surgiu a Agenda 21, cujo documento contém recomendações para implantar a sustentabilidade e a sugestão de ações ambientais para os anos vindouros. A magnitude do evento organizado no Rio de Janeiro provou a urgência que a questão ambiental assumiu na agenda das discussões globais, portanto de interesse de toda a humanidade.
O canadense Maurice Strong, que foi secretário-geral da Rio 92, defendeu a necessidade de maior cooperação entre os países a fim de resolver os problemas ambientais. Com isso, nada adianta um país ser a favor de medidas que não se aplicam no seu próprio território, ou seja, seguir um modelo destrutivo e transferir os danos causados e a responsabilidade a outras nações. Indiferença foi o não comparecimento da ministra do meio ambiente, Marina Silva, que nem enviou representantes à reunião do Rio +15. Esta foi promovida pela empresa EcoSecurities em setembro passado e motivada pela preocupação em torno do aquecimento global.
A culpa pelos estragos causados ao meio ambiente nem sempre é assumida pelos principais autores, o que justifica a falta de adesão de países desenvolvidos em acordos internacionais que, na opinião destes, prejudicam o seu desenvolvimento. A redução da emissão de gases que causam o efeito estufa na atmosfera tem sido proposta antes por países subdesenvolvidos que desenvolvidos, o que frearia ainda mais seu processo de desenvolvimento porque o modelo vigente ainda é o da industrialização, por isso o Brasil seria muito afetado.
A segunda gestão de Lula tem lutado pela causa ambiental, embora de maneira parcial e duvidosa, com a proposta de criar unidades de conservação em ambientes terrestres e marítimos, reduzir a taxa de desmatamento, incentivar o uso de tecnologias limpas, expandir as ações de educação ambiental em defesa de consumo sustentável e economia de energia. Não obstante, a dificuldade reside nos obstáculos que esta luta tem que contornar, entre eles o enorme gasto para a educação ambiental num país em que este investimento não tem sido prioritário e os interesses de setores contrários às políticas ambientais, como empresas madeireiras e indústrias altamente poluentes.
A ferida ambiental torna-se maior frente ao fato de que o que se faz no mundo em prol do desenvolvimento sustentável está muito aquém do ideal. Lula propôs, na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, que o Brasil sedie a Rio + 20 como uma nova cúpula mundial sobre meio ambiente em 2012 para avaliar o que foi feito desde o evento similar Rio 92. É urgente, portanto, trazer a questão dos biocombustíveis a teste, uma vez que não está bem contada a história de que não causa impacto ao meio ambiente. Para um horizonte de equilíbrio ambiental, falta vontade política para expor ao mundo o que cada país realmente pode fazer para evitar novas feridas.
BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais.
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